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| Quinta-feira, 15 Novembro 2007 |
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DÉCIMO QUINTO DIA
Vou aproveitar este último dia para fazer uma espécie de making off da minha experiência silenciosa de quinze dias. E também responder a algumas questões que surgiram nos comentários e, finalmente, fazer um balanço geral da expedição rumo à Patagônia Secreta.
Qualquer viagem que façamos, seja ela física ou mental, como a que fiz, é imperioso que os preparativos sejam feitos com uma certa antecedência e muita precisão. No caso da minha expedição silenciosa, vacilei neste quesito, básicamente, por duas razões. A primeira foi um erro de logística de minha parte : não sabia a quantidade exata de víveres que teria de estocar a fim de sair o mínimo possível de casa. Este erro no cálculo da “sobrevivência para quinze dias”, somado à segunda razão - que considero mais uma fatalidade do que erro de logística - o vencimento do meu cartão de banco logo no primeiro dia do voto de silêncio, foram os motivos dos piores momentos que passei ao longo destes quinze dias.
O pior deles foi na segunda-feira, dia 12 de novembro. Estava à espera do novo cartão, marcado para entrega pelo banco nesta data, e nada dele chegar. Meu estoque de alimentos e, principalmente, de oferendas ( prática que cumprí espartanamente todos os dias) havia praticamente chegado ao fim. E sem cartão, como vocês sabem, não é possível comprar nenhuma mosca. Neste dia, por volta das duas horas da tarde, quando notei que o carteiro não havia trazido o cartão, eu acabei entrando em pânico e liguei para o banco. Decorei um texto minimalista para falar o mínimo possível. Mas falei. Um minuto, não importa, falei. Passei o resto do dia com sintomas de depressão : inapetência, falta de entusiasmo, angústia e um inútil arrependimento. Bem, eu poderia jejuar ou ir até a casa de alguém e pedir socorro. Mas naquele momento, talvez em decorrência do final de semana “carnavalesco” ( e delicioso!) que relatei aqui nos dias 10 e 11, perdí a concentração. E eis algo que é fundamental para que uma experiência deste tipo tenha cem por cento de êxito : concentração. Mas na manhã seguinte, feita a auto-crítica, acordei com o dobro de concentração e de entusiasmo que vinha tendo até então. Eu diria que estes três últimos dias foram os mais intensos e proveitosos de toda a expedição.
Uma questão que foi muito abordada nos comentários : se o fato de eu escrever diáriamente não nublava os fundamentos do voto de silêncio. Devo confessar que nos primeiros cinco, seis dias, sim, tinha que conviver com uma “tagarelice textual” vinte e quatro horas por dia. E é claro que esta tagarelice acabava por eclipsar boa parte do silêncio desejado. Mas nos últimos dez dias, estabelecí uma norma e a seguí até o último dia : só pensaria no texto enquanto caminhava de manhã. E, ao voltar para casa, ele seria imediatamente escrito e a tagarelice textual suprimida da minha mente pelo resto do dia. E foi o que aconteceu. O ideal, contudo, admito, seria não ter de escrever todos os dias, aliás nenhum dia. Mas, por outro lado, acabei desenvolvendo uma técnica de escrita bastante sofisticada que pretendo utilizar em trabalhos futuros.
Outra coisa que me deixou levemente perturbado, ainda neste tema, foram alguns comentários absolutamente destrutivos e gratuitos. Uma destas pessoas postou diversas mensagens usando um codinome horrorso com o claro intuito de me desestabilizar. Deve, com certeza, ser alguém que me conhece e que não quer meu bem. Um outro que enviou um único comentário, chegou à conclusão de que eu, na verdade, não estava cumprindo voto de silêncio coisa nenhuma e sim “fumando um”em casa e comendo chocolate, algo assim. Este me irritou por uma única razão : eu abomino esta maldita cultura da malandragem e da trapaçaria que está institucionalizada no nosso país há séculos. Afora estes dois casos, os comentários me serviram como bússola na minha navegação e, muitas vezes, de estímulo para dar continuidade à viagem.
Quanto aos efeitos de não falar por quinze dias ( desconsiderando aquele telefonema, se me permitem) são múltiplos. Existe uma superstição, ou algo do gênero, que apregoa que não podemos falar sobre nossos planos antes que eles se realizem. Pois é, embora não tenha nenhum embasamento lógico, esta máxima me pareceu ser verdadeira. O que acontece, suponho, é que quando falamos sobre algo que ainda vai acontecer, parece que estamos destruindo este “algo” e, através de um caminho inexplicável, fazendo com que ele não aconteça de fato. Estou num momento da minha vida em que os planos estão surgindo com uma velocidade inacreditável. E sinto que não tê-los contado verbalmente para ninguém fizeram com que eles ficassem mais fortes.
Além deste aspecto de auto-conhecimento que foi bastante enfatizado nos relatos, o silêncio me trouxe uma lufada de calma que nunca antes havia sentido. Estou, como costumam dizer, absolutamente zen. A sensação é a de estar saindo de uma clínica para recuperação de nervos partidos. Pretendo seguir nas práticas mântricas e meditativas que vinha desenvolvendo durante o voto de silêncio ( e que já faziam parte da minha vida antes ) com mais e mais afinco. Acho que para aqueles que querem se aventurar por este Oceano do Silêncio por onde naveguei nos últimos dias, a meditação, principalmente ela, é uma ferramenta importantíssima.
No mais, vou ficar com saudades de escrever para vocês todos os dias, sinceramente. Criei um elo tão forte com este trabalho que, com certeza, vai demorar algum tempo para que eu consiga voltar à minha vida normal. Mas a estrada é longa e haveremos de nos encontrar de novo em algum ponto deste planetinha cósmico.
Um abraço para todos!
Ciro Pessoa
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| Quarta-feira, 14 Novembro 2007 |
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DÉCIMO QUARTO DIA : O OUTRO LADO ESPELHO
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| Quarta-feira, 14 Novembro 2007 |
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Terça-feira, 13 Novembro 2007 DÉCIMO TERCEIRO DIA
“O homem é uma crisálida que se lembra” ( Mário de Sá Carneiro )
Ontem à tarde, enquanto navegava à deriva pelo Oceano do Silêncio, comecei a observar a estranha presença de borboletas próximas ao navio. Flutuavam, leves como são estes serzinhos coloridos, e vez por outra, davam um mergulho rasante nas águas verdes do mar. A princípio eram poucas, talvez dez, no máximo vinte. À medida em que a tarde ia caindo e o céu revestia-se de uma mistura de púrpura com um azul escuro, compacto, os pequenos seres alados foram se multiplicando. Notei que algumas delas já não só davam vôos rasantes como mergulhavam no interior do oceano.
Intrigado com o fenônemo, lembrei-me de um livro que tinha lido há pouco tempo atrás, “ As Fantásticas Viagens de Mantraman”. Num dos episódios, “Mantraman e o Oceano das Borboletas Impermeáveis”, o personagem, que é repórter de uma revista de viagens transcendentais chamada Pirlimpimpim, recebe uma missão de seu editor Macro Céfalo : pescar um “cardume” destas borboletas e trazê-lo para a redação da revista. Mas, embora não tenha conseguido “pescar” uma só borboletinha impermeável, Mantraman recebe a informação de um nativo que o acompanhava na “pescaria”, de que aqueles que seguem as borboletas até o fundo do mar chegam a lugares secretos. Neste mesmo dia Mantraman ligou para o seu editor e passou-lhe a informação. Este por sua vez, que é um personagem tremendamente egocêntrico, exigente e desrespeitoso com o repórter, não deu ouvidos a Mantraman e ainda deu-lhe uma sonora bronca, chamando-o de incompetente pelo fato dele não ter conseguido pescar o tal cardume de borboletas impermeáveis.
E foi só quando me lembrei desta história que deduzí que não estava mais navegando no Oceano do Silêncio e sim no Oceano das Borboletas Impermeáveis. De repente, quando o Sol já se mesclava ao horizonte, uma horda de borboletas começou a surgir no céu. Eram milhares delas, verdes, vermelhas, laranjas, azuis, multicores, transparentes, de todas as formas e tamanhos, todas voando em direção ao navio. Quando estavam quase atingindo a superfície marítima, deram um rasante tão feroz sobre a minha embarcação que ela tombou e eu acabei caindo no mar. À minha frente um gigantesco túnel de ar transparente se formou, uma espécie de vácuo, e foi através dele, em meio a milhares de borboletas impermeáveis, que fui descendo em direção ao fundo do oceano. Em pouco tempo já me encontrava no solo arenoso e brilhante do mar e via, de passagem, dezenas de cavalos marinhos, celacantos, polvos e outros seres marinhos. Quando a queda vertiginosa chegou ao fim, fui despejado dentro de um casulo e ouví o estalido de uma porta se fechando abruptamente.
Não houve tempo, durante esta viagem, para nenhum tipo de pensamento dedutivo, lógico ou formal. Quando dei por mim, já estava no interior deste casulo e a primeira coisa que notei era que ele exalava um odor de mofo e que sua atmosfera era claustrofóbica. Ao longe, ouvia um vozerio intermitente. Fui caminhando lentamente e, aos poucos, comecei a enxergar com clareza o que se passava no interior daquele casulo submarino : ele era povoado por dezenas de pequenos ciros, vestidos de forma diferentes, com diversas cores de cabelos, mas, básicamente todos do mesmo diminuto tamanho. Eu próprio ( ?) percebí que à medida em que caminhava, também ia perdendo altura. Num certo momento, já do tamanho de todos os ciros ali presentes, comecei a identificá-los através de suas atitudes.
O primeiro que observei foi um que estava sentado numa mesa diante de uma escultura inacabada. Notei que sempre que ela estava chegando ao fim ele a destruía com um martelo. E recomeçava tudo de novo de uma maneira incessante. Logo à sua frente, um outro pequeno ciro fazia uma severa divisão de algumas pessoas que o rodeavam : “ já falei, vocês são surdos?, os que eu gosto ficam aqui do meu lado, os que eu tenho aversão que fiquem bem longe de mim”. Repetia a frase de dois em dois minutos. Indiferente a toda esta situação, um outro ciro andava sozinho pelo casulo com ares de superioridade. De vez em quando parava diante um outro ciro e dizia “você não está entendendo nada”. Sentado numa mesa com uma outra pessoa, um ciro nervoso referia-se a alguém com palavras tão pesadas que elas chegavam a se materializar no ar e depois caíam no chão provocando estrondos ensurdecedores. O único ciro inerte estava deitado numa cama recoberta por teias de aranha. E só levantava-se para ir ao banheiro e logo retornava para a cama.
Encostado na frágil parede do casulo, um pequeno ciro repetia “ e eu? e eu? e eu?”. Ao lado dele, um ciro artista, sedutor, cantava umas canções românticas para um público imaginário. O mais patético deles era um ciro cego que não conseguia identificar quem estava à sua frente mas pouco se importava com isto. Para ele, todos pareciam ser a mesma pessoa. O mais engraçado, sem dúvida, era o pequeno ciro embriagado na mesa do bar. Tinha acessos de bondade e, volta e meia, dizia para alguém : “está precisando de quanto? toma, eu tenho aqui”. Quando estava quase chegando no fim do casulo submarino, vi o pequeno ciro falso, se fazendo passar por uma outra pessoa para obter alguma vantagem pessoal. E o último ciro que ví naquele casulo claustrofóbico, era o ciro das mentiras. Reconheci-o por causa do seu nariz que era um pouco mais saliente do que os narizes dos demais.
Quando comecei a me sentir mal, por um instante pensei que fosse ficar preso no casulo mofado com aquela infinidade de pequenos ciros, avistei um espelho que estava colocado no lugar que parecia ser a saída do casulo. Com minhas pernas curtas caminhei a passos largos em sua direção ( aquele vozerio estava me deixando maluco) e quando pude me enxergar refletido em sua superfície, notei que todos os outros ciros começaram a desaparecer. A evaporação dos incontáveis pequenos ciros durou poucos minutos absolutos. Mas como o tempo é relativo, prefiro pensar que esta dissolução demorou muitos anos para acontecer. E então, pouco a pouco, o ruído insuportável foi dando lugar a um silêncio reconfortante. O odor nauseabundo foi transformando-se em aroma de flores. E um brisa marítima deliciosa invadiu o casulo tornando-o arejado.
Finalmente, a minha própria figura no espelho foi desaparecendo. E quando só restavam as minhas mãos, toquei na sua superfície e passei para o outro lado.
Amanhã eu conto para vocês como é o outro lado do espelho.
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Segunda-feira, 12 Novembro 2007 DÉCIMO SEGUNDO DIA
Para quem estava em solitária e silenciosa viagem rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe tropical, durante dez dias, este fim de semana foi para mim um autêntico carnaval. Não bastasse ter ficado na serena e amorosa companhia da minha namorada de sexta à noite a domingo à tarde, no domingo à noite fui jantar na casa dos meus pais a fim de festejar os luminosos 82 anos do meu pai. Ali estavam todos os meus irmãos, cunhadas, cunhado, sobrinhos, meu pai e minha mãe. Devo alertar logo de cara que minha família é muito animada quando se trata deste tipo de encontro e a tônica dominante vai do fino senso de humor ao escracho sem limites. E que, quando estou em meu estado tagarela, sou um dos que mais incentiva a instauração deste clima de alegria e descontração. Difícil me imaginar calado durante uma reunião deste tipo, não? Pois para mim foi uma experiência que, além do inimaginável ineditismo, me fez perceber algumas nuances que até então eu nunca tinha me dado conta.
A primeira delas e talvez a mais marcante foi que, pela primeira vez, saboreei todos os pratos que foram servidos. Sim, quando estamos em silêncio, o paladar parece ficar bem mais apurado. A cada garfada da salada que foi servida na entrada, eu gemia em voz baixa e suspirava de prazer entre uma e outra mastigação. E a cada nova iguaria que era trazida à mesa meus sentidos olfativos, degustativos e mentais pareciam acender de uma maneira extraordinária. A conclusão, a princípio, pode ser bastante óbvia : quando estamos comendo e não falamos nos concentramos muito mais no alimento que estamos ingerindo. Mas, quando voltava para casa e, mesmo hoje de manhã, uma questão sem resposta instalou-se na minha mente : mas por que quando estou me alimentando sozinho não sinto esta intensidade de sabores e odores que sentí naquele jantar de ontem à noite? As respostas são múltiplas e todas elas vagas. É claro que não cozinho tão bem quanto a Luiza, que preparou, com evidente carinho, aquela magnífica seleção de pratos. Outra resposta pode estar no fato de que quem cozinha para si próprio sempre acaba supervalorizando os defeitos da própria comida. Ou ainda, porque não?, eu ser definitivamente um péssimo mestre cuca. Ainda estou em dúvida.
Outro fato que me chamou a atenção, e posso estar enganado, é que, apesar do imenso carinho com que fui tratado, o fato de eu estar calado fez com que surgisse em algumas pessoas uma certa sensação incômoda. Não sabiam, em outras palavras, lidar com a situação : aquele tagarela desbocado e desbundado não deu o ar de suas palavras e esta atitude de mudez parece ter criado uma certa perplexidade no ambiente. Mas o fato é que eu estava como sempre estive, só que em silêncio. E muito feliz de poder me encontrar com aquelas pessoas que são parte super importante da minha vida.
As perguntas que eu mais ouvia ( e isto era engraçado, porque como eu não podia responder, muitas das perguntas acabavam ficando pela metade, como se a pessoa se tocasse, no meio do caminho, que eu não poderia respondê-la com palavras ) eram : “ mas para que ficar quinze dias em silêncio? “ “aonde você quer chegar com isto?”. E estas perguntas, mesmo se eu estivesse no meu estado tagarela-compulsivo, eu ( ainda ) não saberia respondê-las. Porque a Patagônia Secreta, quem sabe reveladora, só agora, nesta segunda feira, depois de doze dias de navegação, começou a dar claros sinais de existência. O relatório desta expedição, com as respostas a estas perguntas, vocês terão, com certeza, no último dia desta cansativa mas altamente enriquecedora viagem em torno do silêncio.
Um outro dado que percebí durante este fim de semana em que me aventurei em meio à “multidão” é que a pessoa silenciosa é quase sempre confundida com uma pessoa que parece estar sofrendo. A uma certa altura do jantar um dos meus queridos irmãos olhou para mim e me vendo caladinho ali sentado na minha cadeira, não se aguentou e exclamou : “ mas que suplício! que suplício!”. Um outro irmão, tão querido quanto este que acabei de citar, me perguntou em voz baixa “ sussurrar pode?”. Eles, com todo amor que tem por mim, pensavam que eu estava sofrendo por não falar. E o que se passava era exatamente o contrário. Sentia-me absolutamente feliz e aliviado de não precisar falar nada e de estar lá só para ouvi-los, pela primeira vez na minha vida, para descanso e estranhamento do meu ego.
Num certo sentido foi excelente misturar-me um pouco às pessoas nesta fase da minha viagem e quebrar um pouco da rotina que estou vivendo. Porque daqui prá frente, faltam três dias, este navio de onde já vislumbro a presença de uma Patagônia Secreta, quem sabe extraordinária, está com todos os seus instrumentos de navegação apontados para uma só direção. E a tripulação, que conta comigo e com todos os meus pensamentos, está absolutamente concentrada para que esta expedição seja realmente reveladora e inesquecível.
Para vocês que permancem em terra firme, bom trabalho e boa sorte!
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| Domingo, 11 Novembro 2007 |
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DÉCIMO PRIMEIRO DIA
Com os meus comandos mentais já devidamente adestrados para não falar e praticamente desfalecido de saudades, recebí minha namorada, Rebelde, para passar o fim de semana a bordo deste navio que, apesar das borrascas e das intempéries marítimas, continua singrando solene e altivo o Oceano do Silêncio rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe amorosa. É claro que não tínhamos a menor idéia de como seria nossa convivência a bordo durante o fim de semana. Mas conhecendo-a, ou supondo conhecê-la, intuía ou profetizava dentro de mim como seria legal nossa história nestes três dias. A verdade é que ela parece ter feito um voto de silêncio quando estava nadando no útero de sua mãe : é muito serena, fala pouco e quando o faz raramente refere-se a si própria. Em outras palavras, minha namorada tem um ego muito rarefeito, quase que em estado gasoso. Parece que ela já nasceu com uma condição búdica bastante avançada. E esta talvez seja uma das razões pelas quais eu a amo tanto. Existem outras razões, secretas. E as que ainda restam são misteriosas. Felizmente.
Por outro lado, eu sou um tremendo monstro tagarela em estado primitivóide, com um ego gigantesco e um orgulho do tamanho do Himalaia. E neste fim de semana este meu repertório verbal, dizem que extremamente sedutor, estaria fora do jogo. Teria que me comunicar através de outros meios que não a fala. Pois bem, quando ela chegou em casa, linda, ligeiramente apreensiva, com um presente embaixo de seus braços ( o livro mais lindo que ví em toda a minha vida, um compêndio de imagens radiantemente belas de entidades do panteão do budismo tibetano ), eu comecei a pular, dançar, gemer e murmurar enquanto beijava-a com a boca trêmula de emoção. Nesta primeira noite, era sexta-feira, ah, como eu queria lhe contar tantas coisas, dizer-lhe o quanto estava feliz em vê-la, pelo presente que ela me deu, por ela existir, enfim, queria falar-lhe isto, aquilo, aquilo outro... Mas com a reveladora passagem do tempo fui percebendo que, sem dizer uma só palavra ela percebia claramente tudo o que estava se passando comigo, tanto no âmbito das minhas emoções, e, a partir de um certo momento, dos meus pensamentos. Ela : telepata.
Com a minha máquina tagarela desligada, fomos nos acalmando e dormimos, silenciosamente, abraçados. No sábado de manhã ficamos nos observando, os olhos falam como duas bocas com mil línguas cada, e nos desejando. Sábado : foi o dia em que percebí que não precisava lhe falar absolutamente nada. Todas as milhares de palavras que me vinham à mente eram dispensáveis, superficiais, redundantes. E eu ia delentando-as, uma a uma, para o deleite da minha serenidade e triunfo do meu voto de silêncio. Vez ou outra, usávamos o artifício do bilhete, como o fiz no no domingo, logo que acordamos.
Escrevi em letras de formas esta única palavra interrogativa “YOKO?” e lhe mostrei. Ela já estava sabendo da exposição desta genial artista nipo-americana-cósmica e, em menos de uma hora, já estávamos a caminho do Centro Cultural Banco do Brasil. No caminho, no ônibus, encontramos com um amigo. Ao lhe dizer através de mímica que eu não estava falando, ele pensou que eu estivesse afônico por causa de algum show. Mas Rebelde conseguiu, em tempo, dar-lhe a verdadeira explicação : “ele resolveu ficar quinze dias em silêncio” e, a seguir, deu uma risada. O nosso amigo também começou a rir e nos disse algo como “ eu sempre soube que este cara é louco, mas não sabia que ele já estava neste ponto!”.
Então, já estávamos na exposição de Yoko Ono, uma artista multi mídia com uma considerável influência do zen budismo e de todas as suas decorrências minimalistas. Guardei para o final deste décimo primeiro dia de expedição rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe zen-budista, algumas frases de um trabalho de Yoko chamado “Cleaning Peace” e de um outro, “Sound Piece”.
Cleaning Peace III
Tente não dizer nada negativo sobre ninguém a-durante três dias b-durante 45 dias c-durante 3 meses Veja o que acontece com a sua vida.
Cleaning Peace IV
Escreva todas as coisas que lhe provoca medo na vida. Queime. Despeje óleo de ervas com aroma doce sobre as cinzas.
Sound Piece II
Ouça sua respiração Ouça a respiração do seu filho. Ouça a respiração do seu amigo. Continue ouvindo.
Sound Piece IV
Cada planeta segue sua própria órbita. Pense nas pessoas próximas a você como planetas. Às vezes é interessante apenas observá-las girando em suas órbitas e brilhando.
É isto aí, Yoko! O silêncio é revolucionário. Na arte, no amor e no cosmos.
Tenham todos uma excelente semana!
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| Sábado, 10 Novembro 2007 |
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DÉCIMO DIA
Depois de uma semana repleta de palavras escritas, mas nenhuma dita, resolví mostrar para vocês algumas imagens do meu dia a dia. Desculpem-me pela qualidade das fotos, sou um fotógrafo prá lá de amador. Todas elas foram feitas a bordo do navio que singra o Oceano do Silêncio rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe surrealista, exceto as imagens do Bosque das Árvores Flutuantes, bosque que poderia muito bem estar na convés do navio, mas que, infelizmente, no corre corre dos momentos que antecederam a expedição acabei esquecendo de colocá-lo lá.
 O altar, silencioso e fechado, aguarda as primeiras oferendas do dia...
 Eis as 7 oferendas sobre o altar : água para beber, água para banhar-se, alimento, odor sob a forma de incenso, cor sob a forma de flores, luz sob a forma de um cristal e de velas, e som sob a forma de um caracol marinho. Fazer oferendas é muito semelhante a receber uma visita em sua casa e você quer oferecer a esta visita o que há de melhor na sua residência...
 Feita as oferendas, é hora de pegar o caminho do Bosque das Árvores Flutuantes...
 Vejam como ele é lindo numa manhã de sol...
 Estas duas árvores aí são minhas amigas. A Isaura e a Sandrix, elas são primas e estão sempre flutuando juntas!
 Quando volto para o navio olhem só quem está me esperando para ouví-lo...
 Enquanto escuto Hendrix aproveito para saborear uma tigelinha de granola com leite, já que os nutricionistas ainda não colocaram este precioso alimento nas suas listas negras...
 Então eu me sento nesta almofada e fico meditando e fazendo outras práticas durante uma hora...
 Depois eu escrevo para vocês, almoço e deito nesta rede que aparece só um pouquinho...
 Aí eu me sento numa poltrona que tem no escritório e leio um bocado, até aquela hora em que o dia vai para outro lugar...
 Cansado de ler, eu desço para o altar e fico mantreando e pensando neste Buda super bonito aí, chamado Tchenrezi, o Buda da Compaixão...
 E neste outro também, o Mahakala. Ele parece bravo mas na verdade só fica irado com aqueles que querem destruir as belezas do budismo...
 Ih! Olha o meu violão ali na sala me esperando para eu tocar umas bossas novas e depois uns bons rock and rolls...
Para quem acordou às cinco e meia da manhã, dez da noite já é muito tarde...
 Opa! Parece que já estou começando a sonhar....Tchau, pessoal! |
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| Sexta-feira, 09 Novembro 2007 |
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NONO DIA
BALANÇO GERAL DE UMA SEMANA SILENCIOSA
Falar é cansativo e perigoso.
É o nosso equivocado ego em estado egoísta que causa todos os problemas e sofrimentos da humanidade.
Navegar em si mesmo é o melhor caminho para chegar aos outros.
O carma se constrói nesta própria vida. E nela se desfaz se agirmos.
A meditação diária é a única saída para o caos mental em que se encontra a humanidade.
O mantra tem um poder colossal sobre nossas mentes.
A humanidade está na idade da pedra lascada com relação a auto-conhecimento.
Um trabalho só é bem feito se é feito com amor.
A felicidade mora entre a serenidade e a luminosidade.
Não existe um “eu” separado do outro. Somos extensões uns dos outros.
A ilusão permeia todos os fenômenos.
A aversão é alimentada pela tagarelice verbal.
A Patagônia Secreta, quem sabe reveladora, está situada dentro de nós mesmos.
A prática diária da oferenda é um excelente remédio para curar o egoísmo e o apego.
Na origem de todas as guerras está a fala mal pensada e eivada de cólera.
As atividades feitas com a disciplina que flue de dentro para fora, sem imposição, nos torna cada dia melhores.
O verdadeiro herói sabe, também, se divertir sózinho.
Nascemos, vivemos e morremos nús. O resto é frivolidade e vaidade.
Somos completamente cavalgados pela mente. Em momento algum nós a cavalgamos.
Só quando a pessoa está no estado de não-eu é que existe verdadeira paz, beleza e felicidade.
Um bom fim de semana para todos!
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| Quinta-feira, 08 Novembro 2007 |
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OITAVO DIA
Tenho lembrado muito nestes oito dias em que meu navio está navegando sobre o Oceano do Silêncio rumo à uma Patagônia Secreta, quem sabe imaginária, sobre o primeiro voto de silêncio que fiz há doze anos atrás num monastério do Rio de Janeiro. E quase sempre acabo nas inevitáveis comparações entre este e aquele. Aquele, o do Rio, tinha um diferencial fundamental com relação a este : estávamos em onze ou doze pessoas e, dentre estas pessoas, estavam amigos e amigas minhas com quem eu estava sempre falando até a instauração do voto de silêncio que durou dois dias. Do aprendizado extraído daquela prática lembro-me de um em especial. Toda vez que tomava impulso para falar algo com um destes amigos, e me lembrava do voto, e me calava, acabava analisando o conteúdo da fala que ficava por dizer. E noventa e nove por cento delas eram falas absolutamente dispensáveis.
Já neste voto de silêncio experimental século XXI que resolví fazer há oito dias, estou absolutamente sozinho. O máximo que posso fazer em matéria de fala é falar sozinho. Mas em algumas situações externas tenho sofrido com minha a mudez voluntária. Por exemplo, quando vou caminhar no Bosque das Árvores Flutuantes de manhãzinha, sempre sou saudado pelo vigia com um sonoro e bem humorado “ Bom dia, Alemão!” e eu não posso responder-lhe com igual altivez e simpatia, como sempre fazia, aliás. Aceno com a cabeça, com as mãos, procuro dar o maior sorriso que tenho mas não emito uma única e gutural palavra. Não sei o que ele está pensando de mim. Já a caixa do supermercado acha que sou estrangeiro. Ou tímido. Ou mudo. Ou ambos, um estrangeiro tímido e mudo. Nestas e em outras outras situações semelhantes sofro por não poder ser cordial. Talvez porque ache a cordialidade um dos supra-sumos da civilidade.
Pois bem, enquanto divagava ontem à tarde sobre estes fatos do passado e do presente, fui surpreendido por uma verdadeira esquadra de papagaios sobrevoando a proa do navio. Eram centenas, perfilados de uma maneira caótica, mas voando rigorosamente na mesma direção. Olhei para onde estavam indo com tanta determinação e acabei por enxergar, a poucos metros de onde navegava, uma ilha de tamanho médio, aparentemente deserta. Ato contínuo, resolví segui-los até a tal ilha. Âncoras ao mar, nadei uns duzentos metros até a praia. A água transparente misturada às cores púrpuras do fim de tarde faziam uma belíssima pintura e, em poucos minutos já estava em areia firme, quer dizer, fofa. Quando comecei a caminhar à beira-mar, ouví ao longe ruídos de algo que parecia uma civilização. Sim, eram vozes humanas, sons de motores de veículos, todos misturados, ao longe. Não demorou muito eu já estava diante de uma pequena cidade com muitos bares, hotéis, pousadas, lojas, oficinas mecânicas. Enfim, uma pequena cidade com seu comércio e seus habitantes.
Pensei comigo em me limitar a dar uma volta pela onírica cidade e retornar o quanto antes para o navio. E assim o teria feito se não tivesse sido interceptado por um sujeito que jurava me conhecer de longa data, que dizia se chamar Afonso, “mas como? você não está se lembrando de mim?”, e puxava por um fio da memória daqui outro dali e eu nada. Nem de reconhecê-lo e nem de falar com ele. Vocês não fazem idéia da dificuldade que é explicar para alguém, através de mímica que você fez um voto de silêncio. Já estava quase conseguindo me desembaraçar do Afonso, com uma certa diplomacia, quando surgiram mais duas garotas e um outro cara. “ Olha quem está aqui !” bradou o Afonso para os outros que imediatamente exclamaram “ não acredito! fala aí, cara, como é que você veio parar aqui na Ilha dos Tagarelas?” perguntou-me uma garota de biquini cor de rosa, “ você sempre foi ligado em falar, né? está no lugar certo, brother !” disse-me um rapaz com aspecto de havaiano. Tentei, em vão, explicar-lhes que não estava falando, mas que, em outros tempos, sim eu falo, quer dizer, falava bastante até além da conta. Mas explicar tudo isto através da mímica era semlhante a fazer uma acrobacia de múltiplas e complicadas piruetas.
Já era de noite quando eles me levaram para um bar e, a esta altura, já eram mais de doze pessoas a me reconhecer “ é aquele cara que fala mais que todos, não é?” dizia um gordinho com uma camiseta com uma estampa de um papagaio. A situação estava ficando cada vez mais embaraçada para mim porque, à medida em que o tempo passava, eles iam cada vez mais achando que me conheciam e que eu tinha me tornado uma pessoa antipática, esnobe, convencida. E começaram a se zangar comigo. Até que um sujeito barbudo sacou de sua bolsa um telefone celular e começou a mostrar para todos uma imagem minha filmada há meses atrás num bar. Nela, eu discutia ferozmente com um físico sobre o aquecimento global. “Por Deus, pensava, como estes caras foram descolar esta imagem?”. E o celular do barbudinho foi rodando de mão em mão entre exclamações do tipo “ é, é ele mesmo...”. A situação estava tão delicada que, por um instante, pensei que a única solução fosse quebrar o meu voto de silêncio.
Dali para frente, tudo o que eu tinha a fazer era esperar eles encherem a cara e, no primeiro vacilo, dar o fora daquela ilha. E foi o que acabou acontecendo : quando era meia-noite, os tagarelas esqueceram-se um pouco de mim e aproveitei para ir ao banheiro de onde saí furtivamente por uma porta lateral e, graças, à luz da esplendorosa Lua Cheia, conseguí voltar ao navio sem falar uma palavra sequer. Mas numa exaustão que vocês não podem imaginar!
A conclusão a que cheguei é que estas ilhas que circundam a Patagônia Secreta, quem sabe tagarela, sabem muita coisa a meu respeito. E que o melhor daqui para frente, como logística de viagem, é navegar direto para aquela Patagônia, a Secreta.
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| Quarta-feira, 07 Novembro 2007 |
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SÉTIMO DIA
Ontem á noite, quando estava naquele trânsito entre dormir e tentar aproveitar um pouco mais a noite, percebí algo que até não tinha me dado conta. A questão do falar parar mim já está bem resolvida, minha mente aceitou totalmente o comando que foi lhe enviado e já sabe que a fala está ausente da minha vida por enquanto. E quanto a escutar as pessoas? Pois, se me lembro bem, a última vez que escutei alguém falar comigo foi há oito dias atrás. A verdade é que ontem à noite fui possuído por um intenso desejo de ouvir alguém falar comigo, ouvir a voz de alguém dirigindo-se a mim. Mas sabia que isto era impossível. Foi então que fiz uso das três mensagens que tenho guardadas na minha secretária eletrônica. Fiquei cerca de meia hora ouvindo e reouvindo estas três mensagens.
A primeira, foi uma que minha mãe deixou há dois dias atrás logo após ter lido o meu quinto dia de silêncio. O conteúdo é de emoção, já que naquele dia escreví sobre os problemas que tenho com a minha filha mais velha. Mas foi a sua voz, a voz em si, seu timbre, seu registro, sua entonação, enfim, os elementos circundantes de sua voz, que foram me deixando pouco a pouco emocionado. Algum tempo depois fui tomado por um profundo sentimento de amor. Porque ali estava a voz de alguém que fez tudo por mim durante a vida, sem reservas, mesmo que a sua própria vida estivesse em perigo. Uma voz já fragilizada pelo tempo, falha em alguns momentos, mas cuja essência era profundamente amorosa. Naquele instante descobrí, maravilhado, que ela e eu somos um só.
A seguir, escutei a voz da minha irmã, que também elogiava o relato do quinto dia. Mas também me detive nos detalhes periféricos da sua voz, sua aparente imponência disfarçando um resquício de um timbre ainda infantil em seus quarenta anos, uma enorme afetividade intrínseca e, sobretudo, uma voz que sinalizava uma gigantesca cumplicidade que só os irmãos sangüíneoos podem ter. Descobrí, naquele instante que minha irmã e eu somos um só.
E a última mensagem, a que mais ouví, era de minha namorada Rebelde. Ela não elogiou nada e nem se referiu a texto nenhum. A palavra exclamada por ela com uma veracidade e uma força descomunal era “ saudade!”. Também em sua voz, me detive nos elementos periféricos : seu timbre de quem está se tornando uma mulher, uma linda mulher em seus vinte e cinco anos, toda a esperança que ela deposita na nossa relação ( hei, Rebel Woman, eu amo tanto você ! ). Ao reouvir aquela palavra dita pela sua boca tão bela, de uma forma tão visceral, “saudade!” me sentí o homem mais amado do mundo. Descobrí, também, naquele instante, duas coisas : que ela e eu somos um só e que eu daria a minha vida por ela.
Talvez este intenso e puro amor que viví ontem à noite tenha sido a causa da felicidade que sentí ao despertar hoje de manhã. Levantei da cama, me sentia leve, muito leve, e olhei através da escotilha. Lá fora, o navio singrava a média velocidade rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe psicodélica, sobre um oceano sereno e levemente azulado, sob um céu também azulado, onde a última estrela emitia seus últimos sinais de luz. Passados cinco minutos detectei com uma clareza solar : quem estava morando em mim nesta manhã azulada era a real felicidade. Não a felicidade transitória, aquela que vivemos quando ganhamos algo, um carro por exemplo, ou um aumento de salário. Nem aquela outra que é provocada pelo uso de alguma substância que modifica o estado da mente e quando seu efeito desaparece ela é a primeira a se retirar. Era, e é ainda, uma felicidade estável de quem ama, de quem está amando muito. Não a felicidade de quem se sente amado. Porque esta também é frágil. Esta minha felicidade matinal é uma felicidade serena, silenciosa, sutil, luminosa, deliciosa.
Estou exatamente no meio da viagem rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe cósmica, e já passei por diversas tormentas, centenas de calmarias, desvios de rota. Mas em momento nenhum deixei de fazer este trabalho ( sim, porque isto que estou fazendo aqui é um trabalho de duas faces, um interno, onde sou o caracol a procura de mim mesmo e um externo que são os relatos diários deste caracol a procura de si mesmo ) com amor. É algo que realmente amo estar fazendo. Pouco me importa as dificuldades que eu porventura tenha passado durante esta navegação diante da felicidade que é poder beneficiar uma única pessoa com a esta minha/nossa experiência. O valor desta sensação é muito alto. Tão alto que não se pode enxergar.
Tenham todos um lindo dia! |
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| Terça-feira, 06 Novembro 2007 |
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SEXTO DIA
Aquela ilha de ontem, que batizei com o nome de Ilha da Severidade, já ficou para trás. Meu navio navegou dia e noite sobre o Oceano do Silêncio rumo à Patagônia Secreta, quem sabe luminosa, até defrontar-se com uma outra ilha. Uma ilha particularíssima, diga-se de passagem : toda vez que fixava meu olhar sobre ela, ela parecia mudar de lugar. E mais : quanto mais me aproximava dela mais ela se distanciava. Fiquei parado no convés durante algumas horas, encafifado com o fenômeno até que lembrei-me de algo que tinha lido tempos atrás no meu inseparável Atlas/Dicionário de Lugares Imaginários. Descí até a biblioteca do navio, abrí o precioso livro e lá estava no verbete “ Ilha do Dia Anterior”, as explicações sobre o estranho comportamento da ilha: “ Ilha assim chamada porque os visitantes não conseguem fixar um ponto no espaço a partir do qual o tempo possa ser medido. Quem pretende visitá-la deve saber que não pode desembarcar na própria ilha, tendo de contentar-se em observá-la do navio.” Bem, uma vez ciente da sua ilusoriedade e, portanto, da impossibilidade de desembarcar em tal ilha, tratei de seguir o meu caminho rumo à Patagônia Secreta.
Enquanto espero que outra ilha surja diante de meus olhos ( e que esta seja real!) gostaria de contar para vocês como tem sido minha vida a bordo. Sim, porque muita coisa mudou desde aquele já distante primeiro dia até hoje, meu sexto dia de expedição. Na verdade, cada vez mais tenho a sensação de estar num retiro de quinze dias. Para quem não sabe, o retiro é uma atividade onde o praticante se “interna” num monastério ou numa casa paramentada para tal finalidade, e ali fica durante três, quatro dias ou um mês, ou um ano, o tempo é absolutamente variável, sujeito a uma programação diária que vai desde a hora em que ele acorda até a hora que vai dormir. É tudo organizado, cronometrado : “ meditação das seis às sete e meia”, “ café da manhã às oito” e assim por diante.
Há uma lei comum em todos os retiros, ao menos nos que participei até hoje, que é a proibição de sair do local durante os dias de retiro. E penso que há uma razão para isto : o contato com o mundo exterior dispersa a energia adquirida com todas as práticas e atividades desenvolvidas diariamente. No meu caso, não fosse este quesito e eu poderia dizer que estou num retiro de quinze dias. É que não abdiquei de um hábito que adquirí há muito tempo : caminhar num bosque perto da minha casa de manhã. No mais, tenho acordado todos os dias entre cinco e cinco e meia da manhã e assim que abro a porta do quarto já escorrego no carpete de madeira com minhas meias de lã na mão de trinta a quarenta vezes ( prosternação logo ao acordar é uma maravilha, desperta mesmo!), escovo os dentes, lavo o rosto e desço direto para o altar onde faço oferendas ( de água e de alimento, dia destes vou lhes explicar como funciona um altar no budismo tibetano mas, para aqueles que não querem esperar podem acessar este site http://www.dharmanet.com.br/vajrayana/altar.htm ), tomo um café puro, como uma fruta, leio de maneira cada vez mais rápida e desinteressada o jornal ( por que os jornais privilegiam tanto a tragédia? não consigo entender...) , faço minha primeira meditação shamatha do dia ( atenção, outro site para vocês sobre este magnífico estilo de meditação) e saio para caminhar no bosque. Volto uma hora depois e sento na sala para relaxar a musculatura e escutar música ( eis outro ponto em que meu retiro difere dos tradicionais), em geral rock and roll. Ontem ouví Hendrix por quase uma hora e hoje Mutantes. É uma delícia escutar som depois de uma atividade física. Enquanto escuto estas maravilhas, como granola com um pouco de leite, aproveitando que os nutricionistas ainda não colocaram este precioso alimento num tipo qualquer de lista negra.
A seguir, tomo um banho e faço uma prática que seria difícil explicar aqui mas que, básicamente, tem a ver com rituais de purificação. Mais uma hora de meditação e já são onze e meia da manhã, hora de escrever para vocês. Postado, publicado, começo a pensar no almoço. Estou numa fase curry. Tudo que preparo tem o condimento indiano. Daqui a pouco enjôo. Então já são duas horas da tarde e eu descanso na rede quando há sol e na cama quando está chovendo ( onde quase sempre acabo dormindo por uma hora). Descansado, leio até as seis da tarde. Estou preferindo ler literatura budista, mais precisamente um livro “ Cantos de Milarepa : Vida e ensinamento do santo poeta do Tibete”, uma obra-prima. Quando estivermos mais próximos da Patagônia Secreta, quem sabe ilusória, vou escrever algo sobre Milarepa para vocês. Das seis às oito volto às práticas : começo com o Buda da Compaixão, Tchenrezi, medito durante uma hora e finalizo com Mahakala, que, para o budismo tibetano significa uma manifestação irada de Buda.
A esta altura já é noite. Com toda a concentração acumulada em horas de meditação, pego o meu violão e toco, a princípio só os clássicos da bossa-nova, a primeira é sempre “Meditação”, linda, e na segunda parte do ensaio toco as minhas músicas novas que farão parte do meu próximo cd “ Em Dia com a Rebeldia”, só rock and roll. Antes de me deitar preparo algum alimento leve, uma salada, uma sopa e só então vou para a cama. Tento assistir televisão, cada vez mais impossível devido ao meu cansaço e à própria programação e quando são dez horas eu já estou nos braços de Morfeu. Como vocês podem notar, tenho tido uma vida quase monástica. Ou uma vida monástica experimental. Ou uma muda vida monástica experimental. Escolham.
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| Segunda-feira, 05 Novembro 2007 |
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QUINTO DIA
E eis que hoje de manhã, enquanto fazia oferendas no altar e o Sol ainda era um ator principal ausente no céu, avistei, através da escotilha do navio onde navego rumo à Patagônia Secreta, e quem sabe reveladora, uma ilhota. O mar estava calmo, levemente esverdeado, iluminado pelos raios de uma luz lunar amarelada. Fui tomado por um tal contentamento que, antes que pudesse pensar em meu voto de silêncio, bradei a todo pulmão : “ Ilhota à vista!”. Em menos de duas horas, quando o Astro Rei começava a exibir sua magnitude, já estava ancorando o navio numa praia da ilhota e, depois de longos quatro dias oceânicos, pisava, deslumbrado, em areia firme.
Da praia avistei uma montanha, uma única e pequena montanha, e a passos largos encaminhei-me em sua direção. Ela estava a poucos metros da praia e em menos de dez minutos já começava a minha “escalada”. As trilhas eram todas incertas, rodeadas de uma vegetação que ia de ciprestes a bambús e um único e solitário pássaro vermelho cruzou o meu caminho, em silêncio. No topo da montanha, uma surpresa : a Patagônia Secreta era, na verdade, circundada por dezenas de pequenas ilhas. Impossível saber se a própria Patagônia Secreta era, também, uma ilha. Uma grande ilha reveladora. Fiquei ali no topo da montanha durante cerca de quarenta minutos. Quando me preparava para voltar ao navio, o dia já ia claro, avistei o que parecia ser um palco de teatro grego, uma arena protegida por uma orla de árvores frutíferas. Caminhei em sua direção, temeroso, curioso, expedicionário e quando cheguei diante daquele palco sem platéia tive a primeira grande revelação desta Viagem Silenciosa de Quinze Dias.
Sentei-me sobre a murada de gesso que, em tempos remotos, servia de assento para o público e a cena que transcorria no palco era a seguinte : eu e minha filha mais velha em meio a uma feroz discussão. Lembrei-me do dia, da hora, do local, enfim, de tudo o que se passou naquele (triste) dia que servia de referência para a cena. Minha voz vociferava como se eu fosse uma besta possuída pela cólera. E as minhas palavras eram pesadas, impensadas e reverberavam por toda a sala onde se passava a cena. Minha filha fingia uma aparente calma. Mas, agora, vendo de novo a cena, à luz da manhã, vejo que ela estava tremendo por dentro, tremendo em sua pouca idade, indefesa diante de um dragão que cuspia enormes bolas de fogo, de uma língua que a cortava com se fosse um machado afiado. Vi a mesma cena cerca de vinte vezes ( ela se repetia num moto contínuo ) e pude avaliar, com calma, os estragos que ela provocou na minha vida.
Ali foi criado, além de uma cisão familiar que até hoje não se resolveu, um carma de proporções abissais. E um carma que, no final, acabou estendendo-se para suas duas outras irmãs, minha ex-esposa, enfim, um carma coletivo. A palavra carma vem do sânscrito e significa exatamente causa e efeito. Estas palavras mal ditas, impensadas, que proferí naquele dia, a causa, deixaram em mim, ao longo destes oito anos, uma sensação infernal de sofrimento, o efeito, que eu buscava, a todo custo, camuflar, ludibriar, sempre adiando a solução, o ponto final, o fim do carma. E o que percebo agora, revendo a cena, é que se esta história não for resolvida, ela sempre ocupará um espaço intranqüilo e desarmônico na minha mente. E eu não quero isto.
Quando voltava para o navio, parei por um momento sob uma figueira e anotei no meu diário de bordo “ resolver problema com filha mais velha assim que acabar a viagem...”. Confesso que, apesar de ter revisto mais de vinte vezes uma cena pesada, chocante, estou me sentindo, neste momento, bem mais leve e luminoso por dentro. E, com uma única certeza : navegar rumo à Patagônia Secreta não é tarefa para marinheiros amadores.
Vou ficar por aqui. Amanhã, outra ilha.
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| Domingo, 04 Novembro 2007 |
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QUARTO DIA
Antes de retornar ao Oceano do Silêncio por onde estou navegando há quatro dias rumo a uma Patagônia Secreta e, quem sabe, surpreendente, vou tentar esclarecer algumas dúvidas de internautas com relação à legitimidade do meu voto de silêncio, embora este não seja o propósito deste blog. Não, não é preciso ir a um templo para fazer um voto de silêncio se você faz da casa onde mora seu próprio templo. Aqui tenho todos ou quase todos os aparatos que costumam ter num templo : um altar onde diáriamente faço oferendas e rezo, uma sala de meditação, próxima ao altar, local mais do que ideal para prática meditativa, a suficiente e necessária solidão (sobre a qual escreverei ainda hoje) e um isolamento ( não vejo ninguém conhecido há quatro dias) propício à prática do voto de silêncio. Com relação ao uso de aparelhos eletrônicos como computador e a própria escrita deste blog macularem meu voto de silêncio tenho a dizer o seguinte : escrever não é falar ( procurem no dicionário se estas palavras são sinônimas) . O meu voto é de silêncio e não voto de não escrever. Por fim, meu objetivo com este voto é constatar se a ausência da tagarelice verbal torna a minha mente mais serena e pacificada. É sobre este caminho, ainda em seu quarto dia, que estou escrevendo aqui. Bem, espero ter respondido às dúvidas mais freqüentes dos internautas e agora vamos ao que importa.
Começo a perceber, ainda que de maneira sutil, que a aversão que tenho por algumas pessoas ( nos últimos tempos uma em especial) começa a se dissipar na minha mente. Aquele diálogo interno e externo com esta pessoa que ocupava boa parte do meu tempo mental parece estar dando lugar a algo como um esquecimento eivado de uma leve compaixão. Uma coisa é certa : o fato de não estar falando sobre esta pessoa com ninguém, e eu costumava falar ao menos uma vez por dia sobre os seus desvios de conduta, está fazendo com que este abominável e incômodo sentimento de aversão esteja dissolvendo-se. O curioso é que, de um mês para cá, cada vez que voltava a este tema e tecia meus comentários pesados acerca de tal pessoa, logo a seguir surgia um arrependimento, ou melhor, uma sensação de eu próprio estar me mutilando ao proferir tais palavras. A propósito, ontem lí a seguinte frase, dita por Buda e que parece cair como uma luva para ilustrar o que me acontecia quando falava de tal pessoa “certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”
Outra coisa que me dei conta de ontem para hoje : estou vivendo de uma maneira absolutamente solitária. Antes do silêncio já vinha rolando um forte flerte com a adorável solidão ( sou um adepto radical do genial aforismo do poeta francês Charles Buadelaire “ O verdadeiro herói se diverte sozinho” ) e por muitas vezes ela foi protagonista/heroína das minhas crônicas. Mas desta vez ela está entrando na minha vida de uma maneira visceral. E com isto, acabo estabelecendo um vínculo com esta outra vivência que é a solidão.
Apesar de eu poder me misturar às pessoas (e pretendo fazê-lo quando estiver lá pelo décimo dia de navegação e a Patagônia Secreta estiver aos meus pés) estou preferindo me adaptar aos meus novos mecanismos mentais e comportamentais antes de me encontrar com alguém com quem eu certamente não proferirei uma única e mísera palavra durante todo o encontro. Suponho que as pessoas mais próximas que sabem que irão me encontrar nestes próximos onze dias também estão se preparando para lidar com a situação de uma maneira divertida. Porque, convenhamos, além do chamado lado espiritual, tem um lado engraçado, ou como disse no relato do primeiro dia, surreal num voto de silêncio.
Bem, por hoje é só.
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| Sábado, 03 Novembro 2007 |
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TERCEIRO DIA
Ontem à noite, precisamente entre oito e dez, descobri algo muito importante. Foi exatamente neste período que se deu o que chamarei aqui de minha primeira “ síndrome de abstinência verbal”. Foram duas horas de intenso desejo de falar com alguém. A princípio um alguém hipotético, um amigo, um desconhecido e a seguir uma vontade descabida de falar com a minha namorada. Mas, quando fui analisar o que gostaria de lhe dizer , cheguei à conclusão de que usaria mais de mil palavras para chegar a uma única mensagem : declarar o amor que sinto por ela. Quando conseguí desvendar o que estava por detrás desta síndrome de abstinência verbal, ou seja, o hábito que criei de falar com pessoas seja ao vivo ou por telefone neste período noturno, fiquei menos ansioso e, portanto, bem mais sereno. Se acontecer de novo já sei do que se trata e como lidar.
Por falar em serenidade, ei-la logo ali na frente : começo a divisar no horizonte , ainda que de maneira difusa, a Patagônia Secreta para onde pareço estar navegando. O fato de não precisar mais “ter que falar com fulano por causa daquele cheque “, ou “ ligar para ciclano para perguntar se sua festa de aniversário ainda está de pé”, estes “ precisos” necessários mas muitas vezes infernais que fazem parte do convívio social, simplesmente estão evaporando-se da minha mente. Em seu lugar, começa a se abrir um espaço onde, com certeza, existe uma mina de serenidade. Já começo a sentir seus efeitos. Quando leio, por exemplo, e tenho lido muito mais do que antes do silêncio , minha concentração tem se mostrado bem mais acentuada do que na “era do ruído”. Tenho estado em companhia de todo o tipo de livros : poesia, crônica, romance e alguns livros budistas. Ontem à tarde achei esta pérola no livro “Budismo Essencial” de Gyomay Kubose, ligado ao Budismo Shin, da Verdadeira Escola da Terra Pura, seita criada no século XII no Japão.
“...criar a serenidade na vida é muito importante, em especial para os habitantes das grandes cidades como nós. A urbanização moderna, a expansão externa, a mecanização crescente, aumentam a complexidade e diminuem a serenidade da nossa vida (...)”
(...) “algumas pessoas simplesmente não podem ficar quietas, não conseguem sentar imóveis. Outras deixam o rádio ou a televisão ligados o dia todo, embora não estejam realmente ouvindo ou assistindo ; é uma questão de hábito e também porque não conseguem suportar o silêncio. Estas pessoas são nervosas, irritam-se com coisas triviais e se aborrecem com extremas facilidade. Não são capazes de ver a vida tal como ela é ou as coisas tais como elas são.”
O tédio é um sentimento que ainda não apareceu por aqui. Estou procurando ocupar o meu tempo com atividades que realmente gosto : dia após dia aumento o meu tempo de meditação, porque me parece que ela está se tornando mais prazeirosa e mais fácil do que antes. Dedico-me também à culinária experimental, já que estou evitando ao máximo sair de casa para comer em restaurantes e, na hora de pedir o meu prato ao garçom ter de usar aquele expediente ridículo de me fazer passar por um mudo. A música, da audição à execução, também faz parte do meu cardápio anti-tédio. E, finalmente, a escrita deste blog, onde procuro convergir todas as sensações, constatações e pensamentos que tenho ao longo do dia.
Por hoje é isto.
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| Sexta-feira, 02 Novembro 2007 |
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SEGUNDO DIA
Antes de começar a relatar o que está se passando nos meandros da minha mente e da minha vida cotidiana ou, se preferirem, da minha mente cotidiana, gostaria de esclarecer alguns pontos que acabaram ficando meio nebulosos para alguns internautas acerca deste blog. O fato de eu ter deixado meu e-mail na secretária eletrônica não significa de maneira nenhuma que eu vá passar o dia trocando e-mails com conhecidos e/ou desconhecidos (que já me enviaram alguns). O e-mail poderá ser usado em casos extremos, mensagens como “ Senhor Ciro, sua audiência com o Papa foi transferida para o dia 15 de novembro. Sua Santidade está muito ansioso para encontrá-lo. Aguardo sua confirmação o quanto antes. Atenciosamente, Irmã Carmela” não ficarão sem resposta. Assim como outros tipos de mensagem de igual importância.
Agradeço as mensagens de força deixadas aqui pelos internautas de ambos os sexos. Contudo, estes quinze dias de silêncio não serão quinze dias sem respirar ou quinze dias num baú herméticamente fechado com temperatura abaixo de vinte graus centígrados. Não se trata, também, de um desafio para entrar no Livro dos Recordes e tampouco de uma daquelas gincanas suicidas promovidas em programas televisivos de reality show. Acho que, para quem ficou quarenta e cinco anos ( aprendi a falar com cinco) falando todos os dias e ( nossa!) centenas de noites, abster-se da fala por reles quinze dias não é nenhuma tragédia. Um último comentário dirigido a um internauta específico: é evidente que ninguém precisa ficar me vigiando para me flagrar numa possível quebra do voto. Não existe maior ignorância do que enganar-se a si mesmo.
Dito isto(s), vamos ao relato da expedição em seu segundo dia. Por enquanto tudo parece normal, ou seja, sigo minha vida exatamente como na semana passada ou retrasada. Acho que é muito cedo para constatar algum tipo de mudança significativa derivada da minha mudez. Ainda não vislumbrei no horizonte os picos nevados da tal Patagônia Secreta e Desconhecida para onde estou viajando em serena expedição. Percebo a existência de uma espécie de motor ligado na minha mente que parece me dizer “ não falar, você não pode falar”. Mas acho que com o tempo este motor deverá fazer parte de uma engrenagem natural do meu comportamento. E deixará de ser tão obsessivo quanto nestes dois primeiros dias. Uma única mudança de relativa importância foi constatada ontem à noite enquanto entoava a série de mantras que programei para estes quinze dias : minha voz estava mais limpa, mais forte. Depois, quando fui tocar violão e cantar ( algo que sempre faço depois das práticas, aproveitando que a mente está mais concentrada) esta constatação ficou mais evidenciada : não falar produz mais potência na voz.
Hoje de manhã fui ofendido via secretária eletrônica por uma amiga que, certamente, não sabe dos meus quinze dias de silêncio. O fato é que, mesmo antes desta experiência, eu já era um cara conhecido por não atender telefone. Tenho uma teoria um tanto quanto pessimista sobre este aparelho : acho que o telefone é um verdadeiro escoadouro de más notícias. As ligações, na sua grande maioria, ou são de cobranças ou de pedidos de empréstimo ou de alguém querendo vender algo para você. É raro uma chamada cujo conteúdo seja um aprazível convite para uma glamorosa festa com tudo pago, ou para uma viagem para o Butão “ vai arrumando a sua bagagem que estou passando na sua casa em meia hora, seu passaporte está em dia?”. Mas, voltando à minha amiga, ao escutar a mensagem na secretária eletrônica ela emitiu uma frase gutural com o seguinte texto : “ Porra, Ciro! Você é foda!”. Como vocês mesmo podem constatar, não era nada urgente o que ela tinha a me dizer.
Mais tarde eu volto.
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| Quinta-feira, 01 Novembro 2007 |
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QUINZE DIAS EM SILÊNCIO
VÉSPERA DA EXPEDIÇÃO
Tive uma única e inesquecível experiência com a prática do voto de silêncio. Se deu há cerca de doze anos atrás num monastério budista do Rio de Janeiro. No segundo dia daquele retiro de quatro dias, a monja que nos conduzia instaurou um voto de silêncio de vinte e quatro horas, ou seja, até o fim do retiro. Estávamos em quinze pessoas e lembro-me que o clima no monastério mudou radicalmente depois da instalação do silêncio. Na verdade, era algo meio surreal você estar convivendo com uma dezena de pessoas e não trocar uma só palavra. Fazíamos nossas refeições em silêncio, caminhávamos juntos pelas magníficas alamedas floridas que circundavam o templo em silêncio, a noite caía exibindo seus astros mega-brilhantes em silêncio, íamos para os nossos quartos coletivos e nenhuma palavra era ouvida.
Daqueles tempos até hoje, tentei, várias vezes, em vão, repetir a experiência na minha casa. Mas sempre quebrava o voto ou por não estar suficientemente concentrado na prática ou, na maioria das vezes, por contingências da vida social : era requisitado para um trabalho, por exemplo, e não tinha como explicar ao contratante que não poderia executar a tarefa que ele estava me propondo porque estava em voto de silêncio. Seria, certamente passado por louco e, ao invés de trabalhar, seria envolvido numa camisa de força e despejado num hospício qualquer.
Pois bem, quando estive na redação da Galileu há dois dias atrás, em animada e criativa conversa com o hendrixiano gentil homem Hélio, seu redator -chefe, propus-lhe este pauta-despaupério, um voto de silêncio de quinze dias, certo de que ele chamaria o segurança da Editora Globo e lhe diria em voz baixa “ retire o elemento da sala”. Qual o quê! Hélio adorou, diria mesmo vibrou com a idéia e imediatamente aprovou-a. “ Quando você começa?” ele me perguntou. “Amanhã faço os preparativos e na quinta-feira calo a minha boca por gloriosos e dourados quinze dias”, respondi-lhe sem pestanejar. Fechamos o negócio em grande e rápido estilo. Um blog seria criado onde eu escreveria diáriamente sobre as minhas impressões de uma vida silenciosa e fim de papo. Para mim, é claro.
Ontem, quarta-feira, fiquei por conta dos preparativos para os meus quinze dias de silêncio. E o que seriam estes preparativos? Primeiro avisar às pessoas mais próximas de que nos próximos quinze dias estaria incomunicável por via oral. Se quisessem entrar em contato comigo, teria de ser por e-mail. Instalei uma secretária eletrônica com a seguinte mesnsagem : “ no momento não posso falar mas se quiser entrar em contato comigo tente o e-mail ciropessoa@hotmail.com”. Alguns telefonemas de cunho profissional e pronto : a parte prática estava resolvida. Agora, quanto à prática psicológica a coisa foi bem mais intensa e complicada. Sentí-me, durante todo o dia, como se estivesse partindo no dia seguinte em expedição rumo à Patagônia. A mais secreta e desconhecida das Patagônias. Havia uma agitação na minha mente, uma ansiedade, um descompasso na respiração. Algo realmente estranho.
À noite minha namorada veio me fazer uma rápida visita. E aquele clima de “partida para uma expedição rumo a uma Patgônia Secreta” voltou a pairar no ar com tudo. Eu lhe disse que poderíamos nos encontrar, namorar, tudo como sempre foi, só que eu não falaria nada. “ Mas isto não tem graça”, ela me respondeu. “ Pode ser que tenha. E muita. Vamos esperar para ver no que dá...” tentei animá-la. Antes dela partir, nos beijamos longamente como se nunca mais fôssemos nos encontrar. Entrei em casa e procurei pela minha bagagem. Ela estava toda dentro da minha cabeça.
PRIMEIRO DIA
Acordei, como sempre, às seis da manhã e depois de algumas oferendas no altar e uma leitura relâmpago no jornal, saí para andar. Meu plano era passar no banco e retirar uma quantia suficiente para os meus quinze dias de silêncio. Ao chegar no caixa eletrônico, uma surpresa. O visor me deu a seguinte mensagem : “cartão vencido : procure a sua agência”. Enquanto voltava para casa imaginava uma forma de comunicar na minha agência o vencimento do meu cartão sem quebrar o meu voto de silêncio. Bingo! Escrevi um bilhete numa folha de sulfite, com uma caligrafia prá lá de caprichada : “ Bom dia! Eu não posso falar por ordem médica. Meu cartão venceu hoje. Além de um novo, eu quero fazer um saque de X reais. Obrigado! P.S : Quanto tempo demora para chegar um cartão novo?”. A operação foi tão perfeita que, ao sair do banco, parei num bar e, sem nenhuma vergonha, escreví sobre a mesma folha de sulfite para o atendente : “ uma coca e um café ”. Ele me olhou como se eu fosse um deficiente, no caso um mudo que escutava, porque quando ele me perguntou se a coca era de lata ou em garrafa, eu acenei positivamente com a cabeça para a opção garrafa.
Já estou percebendo que tenho que usar uma série de artimanhas para não quebrar o voto. Agora à tarde fui ao supermercado ( uma ótima opção para compras, a fala é absolutamente prescindível, ao contrário de um bar ou de um armazem locais onde você tem que dizer ao atendente o que quer). No caminho, encontrei com um amigo. Tremendo problema : as pessoas são suscetíveis e ele achou que eu estava inventando que não podia falar com ele e nem com ninguém durante quinze dias ( haja mímica, nestes momentos!) e se afastou de mim com um ar de quem diz “ sempre soube que este cara não é meu amigo...”. Ossos do meu ofício.
Agora são cinco horas da tarde e eu vou começar a fazer as minhas práticas diárias que complementam o voto de silêncio : meditação e mantras. Estou me sentindo como sempre me senti, muito feliz, sereno e um pouco cansado em função das peripécias que tive que desenvolver hoje durante o dia. Mais à noite, se houver novidades, eu volto a falar com vocês.
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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Segunda-feira, 12 Novembro 2007 - Quinta-feira, 15 Novembro 2007
Sexta-feira, 09 Novembro 2007 - Segunda-feira, 12 Novembro 2007
Quinta-feira, 08 Novembro 2007 - Sexta-feira, 09 Novembro 2007
Quarta-feira, 07 Novembro 2007 - Quinta-feira, 08 Novembro 2007
Terça-feira, 06 Novembro 2007 - Quarta-feira, 07 Novembro 2007
Segunda-feira, 05 Novembro 2007 - Terça-feira, 06 Novembro 2007
Domingo, 04 Novembro 2007 - Segunda-feira, 05 Novembro 2007
Sábado, 03 Novembro 2007 - Domingo, 04 Novembro 2007
Sexta-feira, 02 Novembro 2007 - Sábado, 03 Novembro 2007
Quinta-feira, 01 Novembro 2007 - Sexta-feira, 02 Novembro 2007
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