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| Quinta-feira, 01 Novembro 2007 |
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QUINZE DIAS EM SILÊNCIO
VÉSPERA DA EXPEDIÇÃO
Tive uma única e inesquecível experiência com a prática do voto de silêncio. Se deu há cerca de doze anos atrás num monastério budista do Rio de Janeiro. No segundo dia daquele retiro de quatro dias, a monja que nos conduzia instaurou um voto de silêncio de vinte e quatro horas, ou seja, até o fim do retiro. Estávamos em quinze pessoas e lembro-me que o clima no monastério mudou radicalmente depois da instalação do silêncio. Na verdade, era algo meio surreal você estar convivendo com uma dezena de pessoas e não trocar uma só palavra. Fazíamos nossas refeições em silêncio, caminhávamos juntos pelas magníficas alamedas floridas que circundavam o templo em silêncio, a noite caía exibindo seus astros mega-brilhantes em silêncio, íamos para os nossos quartos coletivos e nenhuma palavra era ouvida.
Daqueles tempos até hoje, tentei, várias vezes, em vão, repetir a experiência na minha casa. Mas sempre quebrava o voto ou por não estar suficientemente concentrado na prática ou, na maioria das vezes, por contingências da vida social : era requisitado para um trabalho, por exemplo, e não tinha como explicar ao contratante que não poderia executar a tarefa que ele estava me propondo porque estava em voto de silêncio. Seria, certamente passado por louco e, ao invés de trabalhar, seria envolvido numa camisa de força e despejado num hospício qualquer.
Pois bem, quando estive na redação da Galileu há dois dias atrás, em animada e criativa conversa com o hendrixiano gentil homem Hélio, seu redator -chefe, propus-lhe este pauta-despaupério, um voto de silêncio de quinze dias, certo de que ele chamaria o segurança da Editora Globo e lhe diria em voz baixa “ retire o elemento da sala”. Qual o quê! Hélio adorou, diria mesmo vibrou com a idéia e imediatamente aprovou-a. “ Quando você começa?” ele me perguntou. “Amanhã faço os preparativos e na quinta-feira calo a minha boca por gloriosos e dourados quinze dias”, respondi-lhe sem pestanejar. Fechamos o negócio em grande e rápido estilo. Um blog seria criado onde eu escreveria diáriamente sobre as minhas impressões de uma vida silenciosa e fim de papo. Para mim, é claro.
Ontem, quarta-feira, fiquei por conta dos preparativos para os meus quinze dias de silêncio. E o que seriam estes preparativos? Primeiro avisar às pessoas mais próximas de que nos próximos quinze dias estaria incomunicável por via oral. Se quisessem entrar em contato comigo, teria de ser por e-mail. Instalei uma secretária eletrônica com a seguinte mesnsagem : “ no momento não posso falar mas se quiser entrar em contato comigo tente o e-mail ciropessoa@hotmail.com”. Alguns telefonemas de cunho profissional e pronto : a parte prática estava resolvida. Agora, quanto à prática psicológica a coisa foi bem mais intensa e complicada. Sentí-me, durante todo o dia, como se estivesse partindo no dia seguinte em expedição rumo à Patagônia. A mais secreta e desconhecida das Patagônias. Havia uma agitação na minha mente, uma ansiedade, um descompasso na respiração. Algo realmente estranho.
À noite minha namorada veio me fazer uma rápida visita. E aquele clima de “partida para uma expedição rumo a uma Patgônia Secreta” voltou a pairar no ar com tudo. Eu lhe disse que poderíamos nos encontrar, namorar, tudo como sempre foi, só que eu não falaria nada. “ Mas isto não tem graça”, ela me respondeu. “ Pode ser que tenha. E muita. Vamos esperar para ver no que dá...” tentei animá-la. Antes dela partir, nos beijamos longamente como se nunca mais fôssemos nos encontrar. Entrei em casa e procurei pela minha bagagem. Ela estava toda dentro da minha cabeça.
PRIMEIRO DIA
Acordei, como sempre, às seis da manhã e depois de algumas oferendas no altar e uma leitura relâmpago no jornal, saí para andar. Meu plano era passar no banco e retirar uma quantia suficiente para os meus quinze dias de silêncio. Ao chegar no caixa eletrônico, uma surpresa. O visor me deu a seguinte mensagem : “cartão vencido : procure a sua agência”. Enquanto voltava para casa imaginava uma forma de comunicar na minha agência o vencimento do meu cartão sem quebrar o meu voto de silêncio. Bingo! Escrevi um bilhete numa folha de sulfite, com uma caligrafia prá lá de caprichada : “ Bom dia! Eu não posso falar por ordem médica. Meu cartão venceu hoje. Além de um novo, eu quero fazer um saque de X reais. Obrigado! P.S : Quanto tempo demora para chegar um cartão novo?”. A operação foi tão perfeita que, ao sair do banco, parei num bar e, sem nenhuma vergonha, escreví sobre a mesma folha de sulfite para o atendente : “ uma coca e um café ”. Ele me olhou como se eu fosse um deficiente, no caso um mudo que escutava, porque quando ele me perguntou se a coca era de lata ou em garrafa, eu acenei positivamente com a cabeça para a opção garrafa.
Já estou percebendo que tenho que usar uma série de artimanhas para não quebrar o voto. Agora à tarde fui ao supermercado ( uma ótima opção para compras, a fala é absolutamente prescindível, ao contrário de um bar ou de um armazem locais onde você tem que dizer ao atendente o que quer). No caminho, encontrei com um amigo. Tremendo problema : as pessoas são suscetíveis e ele achou que eu estava inventando que não podia falar com ele e nem com ninguém durante quinze dias ( haja mímica, nestes momentos!) e se afastou de mim com um ar de quem diz “ sempre soube que este cara não é meu amigo...”. Ossos do meu ofício.
Agora são cinco horas da tarde e eu vou começar a fazer as minhas práticas diárias que complementam o voto de silêncio : meditação e mantras. Estou me sentindo como sempre me senti, muito feliz, sereno e um pouco cansado em função das peripécias que tive que desenvolver hoje durante o dia. Mais à noite, se houver novidades, eu volto a falar com vocês.
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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