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| Domingo, 04 Novembro 2007 |
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QUARTO DIA
Antes de retornar ao Oceano do Silêncio por onde estou navegando há quatro dias rumo a uma Patagônia Secreta e, quem sabe, surpreendente, vou tentar esclarecer algumas dúvidas de internautas com relação à legitimidade do meu voto de silêncio, embora este não seja o propósito deste blog. Não, não é preciso ir a um templo para fazer um voto de silêncio se você faz da casa onde mora seu próprio templo. Aqui tenho todos ou quase todos os aparatos que costumam ter num templo : um altar onde diáriamente faço oferendas e rezo, uma sala de meditação, próxima ao altar, local mais do que ideal para prática meditativa, a suficiente e necessária solidão (sobre a qual escreverei ainda hoje) e um isolamento ( não vejo ninguém conhecido há quatro dias) propício à prática do voto de silêncio. Com relação ao uso de aparelhos eletrônicos como computador e a própria escrita deste blog macularem meu voto de silêncio tenho a dizer o seguinte : escrever não é falar ( procurem no dicionário se estas palavras são sinônimas) . O meu voto é de silêncio e não voto de não escrever. Por fim, meu objetivo com este voto é constatar se a ausência da tagarelice verbal torna a minha mente mais serena e pacificada. É sobre este caminho, ainda em seu quarto dia, que estou escrevendo aqui. Bem, espero ter respondido às dúvidas mais freqüentes dos internautas e agora vamos ao que importa.
Começo a perceber, ainda que de maneira sutil, que a aversão que tenho por algumas pessoas ( nos últimos tempos uma em especial) começa a se dissipar na minha mente. Aquele diálogo interno e externo com esta pessoa que ocupava boa parte do meu tempo mental parece estar dando lugar a algo como um esquecimento eivado de uma leve compaixão. Uma coisa é certa : o fato de não estar falando sobre esta pessoa com ninguém, e eu costumava falar ao menos uma vez por dia sobre os seus desvios de conduta, está fazendo com que este abominável e incômodo sentimento de aversão esteja dissolvendo-se. O curioso é que, de um mês para cá, cada vez que voltava a este tema e tecia meus comentários pesados acerca de tal pessoa, logo a seguir surgia um arrependimento, ou melhor, uma sensação de eu próprio estar me mutilando ao proferir tais palavras. A propósito, ontem lí a seguinte frase, dita por Buda e que parece cair como uma luva para ilustrar o que me acontecia quando falava de tal pessoa “certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”
Outra coisa que me dei conta de ontem para hoje : estou vivendo de uma maneira absolutamente solitária. Antes do silêncio já vinha rolando um forte flerte com a adorável solidão ( sou um adepto radical do genial aforismo do poeta francês Charles Buadelaire “ O verdadeiro herói se diverte sozinho” ) e por muitas vezes ela foi protagonista/heroína das minhas crônicas. Mas desta vez ela está entrando na minha vida de uma maneira visceral. E com isto, acabo estabelecendo um vínculo com esta outra vivência que é a solidão.
Apesar de eu poder me misturar às pessoas (e pretendo fazê-lo quando estiver lá pelo décimo dia de navegação e a Patagônia Secreta estiver aos meus pés) estou preferindo me adaptar aos meus novos mecanismos mentais e comportamentais antes de me encontrar com alguém com quem eu certamente não proferirei uma única e mísera palavra durante todo o encontro. Suponho que as pessoas mais próximas que sabem que irão me encontrar nestes próximos onze dias também estão se preparando para lidar com a situação de uma maneira divertida. Porque, convenhamos, além do chamado lado espiritual, tem um lado engraçado, ou como disse no relato do primeiro dia, surreal num voto de silêncio.
Bem, por hoje é só.
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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