Segunda-feira, 05 Novembro 2007
QUINTO DIA

E eis que hoje de manhã, enquanto fazia oferendas no altar e o Sol ainda era um ator principal ausente no céu, avistei, através da escotilha do navio onde navego rumo à Patagônia Secreta, e quem sabe reveladora, uma ilhota. O mar estava calmo, levemente esverdeado, iluminado pelos raios de uma luz lunar amarelada. Fui tomado por um tal contentamento que, antes que pudesse pensar em meu voto de silêncio, bradei a todo pulmão : “ Ilhota à vista!”. Em menos de duas horas, quando o Astro Rei começava a exibir sua magnitude, já estava ancorando o navio numa praia da ilhota e, depois de longos quatro dias oceânicos, pisava, deslumbrado, em areia firme.

Da praia avistei uma montanha, uma única e pequena montanha, e a passos largos encaminhei-me em sua direção. Ela estava a poucos metros da praia e em menos de dez minutos já começava a minha “escalada”. As trilhas eram todas incertas, rodeadas de uma vegetação que ia de ciprestes a bambús e um único e solitário pássaro vermelho cruzou o meu caminho, em silêncio. No topo da montanha, uma surpresa : a Patagônia Secreta era, na verdade, circundada por dezenas de pequenas ilhas. Impossível saber se a própria Patagônia Secreta era, também, uma ilha. Uma grande ilha reveladora. Fiquei ali no topo da montanha durante cerca de quarenta minutos. Quando me preparava para voltar ao navio, o dia já ia claro, avistei o que parecia ser um palco de teatro grego, uma arena protegida por uma orla de árvores frutíferas. Caminhei em sua direção, temeroso, curioso, expedicionário e quando cheguei diante daquele palco sem platéia tive a primeira grande revelação desta Viagem Silenciosa de Quinze Dias.

Sentei-me sobre a murada de gesso que, em tempos remotos, servia de assento para o público e a cena que transcorria no palco era a seguinte : eu e minha filha mais velha em meio a uma feroz discussão. Lembrei-me do dia, da hora, do local, enfim, de tudo o que se passou naquele (triste) dia que servia de referência para a cena. Minha voz vociferava como se eu fosse uma besta possuída pela cólera. E as minhas palavras eram pesadas, impensadas e reverberavam por toda a sala onde se passava a cena. Minha filha fingia uma aparente calma. Mas, agora, vendo de novo a cena, à luz da manhã, vejo que ela estava tremendo por dentro, tremendo em sua pouca idade, indefesa diante de um dragão que cuspia enormes bolas de fogo, de uma língua que a cortava com se fosse um machado afiado. Vi a mesma cena cerca de vinte vezes ( ela se repetia num moto contínuo ) e pude avaliar, com calma, os estragos que ela provocou na minha vida.

Ali foi criado, além de uma cisão familiar que até hoje não se resolveu, um carma de proporções abissais. E um carma que, no final, acabou estendendo-se para suas duas outras irmãs, minha ex-esposa, enfim, um carma coletivo. A palavra carma vem do sânscrito e significa exatamente causa e efeito. Estas palavras mal ditas, impensadas, que proferí naquele dia, a causa, deixaram em mim, ao longo destes oito anos, uma sensação infernal de sofrimento, o efeito, que eu buscava, a todo custo, camuflar, ludibriar, sempre adiando a solução, o ponto final, o fim do carma. E o que percebo agora, revendo a cena, é que se esta história não for resolvida, ela sempre ocupará um espaço intranqüilo e desarmônico na minha mente. E eu não quero isto.

Quando voltava para o navio, parei por um momento sob uma figueira e anotei no meu diário de bordo “ resolver problema com filha mais velha assim que acabar a viagem...”. Confesso que, apesar de ter revisto mais de vinte vezes uma cena pesada, chocante, estou me sentindo, neste momento, bem mais leve e luminoso por dentro. E, com uma única certeza : navegar rumo à Patagônia Secreta não é tarefa para marinheiros amadores.

Vou ficar por aqui. Amanhã, outra ilha.




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Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos
 
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