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| Terça-feira, 06 Novembro 2007 |
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SEXTO DIA
Aquela ilha de ontem, que batizei com o nome de Ilha da Severidade, já ficou para trás. Meu navio navegou dia e noite sobre o Oceano do Silêncio rumo à Patagônia Secreta, quem sabe luminosa, até defrontar-se com uma outra ilha. Uma ilha particularíssima, diga-se de passagem : toda vez que fixava meu olhar sobre ela, ela parecia mudar de lugar. E mais : quanto mais me aproximava dela mais ela se distanciava. Fiquei parado no convés durante algumas horas, encafifado com o fenômeno até que lembrei-me de algo que tinha lido tempos atrás no meu inseparável Atlas/Dicionário de Lugares Imaginários. Descí até a biblioteca do navio, abrí o precioso livro e lá estava no verbete “ Ilha do Dia Anterior”, as explicações sobre o estranho comportamento da ilha: “ Ilha assim chamada porque os visitantes não conseguem fixar um ponto no espaço a partir do qual o tempo possa ser medido. Quem pretende visitá-la deve saber que não pode desembarcar na própria ilha, tendo de contentar-se em observá-la do navio.” Bem, uma vez ciente da sua ilusoriedade e, portanto, da impossibilidade de desembarcar em tal ilha, tratei de seguir o meu caminho rumo à Patagônia Secreta.
Enquanto espero que outra ilha surja diante de meus olhos ( e que esta seja real!) gostaria de contar para vocês como tem sido minha vida a bordo. Sim, porque muita coisa mudou desde aquele já distante primeiro dia até hoje, meu sexto dia de expedição. Na verdade, cada vez mais tenho a sensação de estar num retiro de quinze dias. Para quem não sabe, o retiro é uma atividade onde o praticante se “interna” num monastério ou numa casa paramentada para tal finalidade, e ali fica durante três, quatro dias ou um mês, ou um ano, o tempo é absolutamente variável, sujeito a uma programação diária que vai desde a hora em que ele acorda até a hora que vai dormir. É tudo organizado, cronometrado : “ meditação das seis às sete e meia”, “ café da manhã às oito” e assim por diante.
Há uma lei comum em todos os retiros, ao menos nos que participei até hoje, que é a proibição de sair do local durante os dias de retiro. E penso que há uma razão para isto : o contato com o mundo exterior dispersa a energia adquirida com todas as práticas e atividades desenvolvidas diariamente. No meu caso, não fosse este quesito e eu poderia dizer que estou num retiro de quinze dias. É que não abdiquei de um hábito que adquirí há muito tempo : caminhar num bosque perto da minha casa de manhã. No mais, tenho acordado todos os dias entre cinco e cinco e meia da manhã e assim que abro a porta do quarto já escorrego no carpete de madeira com minhas meias de lã na mão de trinta a quarenta vezes ( prosternação logo ao acordar é uma maravilha, desperta mesmo!), escovo os dentes, lavo o rosto e desço direto para o altar onde faço oferendas ( de água e de alimento, dia destes vou lhes explicar como funciona um altar no budismo tibetano mas, para aqueles que não querem esperar podem acessar este site http://www.dharmanet.com.br/vajrayana/altar.htm ), tomo um café puro, como uma fruta, leio de maneira cada vez mais rápida e desinteressada o jornal ( por que os jornais privilegiam tanto a tragédia? não consigo entender...) , faço minha primeira meditação shamatha do dia ( atenção, outro site para vocês sobre este magnífico estilo de meditação) e saio para caminhar no bosque. Volto uma hora depois e sento na sala para relaxar a musculatura e escutar música ( eis outro ponto em que meu retiro difere dos tradicionais), em geral rock and roll. Ontem ouví Hendrix por quase uma hora e hoje Mutantes. É uma delícia escutar som depois de uma atividade física. Enquanto escuto estas maravilhas, como granola com um pouco de leite, aproveitando que os nutricionistas ainda não colocaram este precioso alimento num tipo qualquer de lista negra.
A seguir, tomo um banho e faço uma prática que seria difícil explicar aqui mas que, básicamente, tem a ver com rituais de purificação. Mais uma hora de meditação e já são onze e meia da manhã, hora de escrever para vocês. Postado, publicado, começo a pensar no almoço. Estou numa fase curry. Tudo que preparo tem o condimento indiano. Daqui a pouco enjôo. Então já são duas horas da tarde e eu descanso na rede quando há sol e na cama quando está chovendo ( onde quase sempre acabo dormindo por uma hora). Descansado, leio até as seis da tarde. Estou preferindo ler literatura budista, mais precisamente um livro “ Cantos de Milarepa : Vida e ensinamento do santo poeta do Tibete”, uma obra-prima. Quando estivermos mais próximos da Patagônia Secreta, quem sabe ilusória, vou escrever algo sobre Milarepa para vocês. Das seis às oito volto às práticas : começo com o Buda da Compaixão, Tchenrezi, medito durante uma hora e finalizo com Mahakala, que, para o budismo tibetano significa uma manifestação irada de Buda.
A esta altura já é noite. Com toda a concentração acumulada em horas de meditação, pego o meu violão e toco, a princípio só os clássicos da bossa-nova, a primeira é sempre “Meditação”, linda, e na segunda parte do ensaio toco as minhas músicas novas que farão parte do meu próximo cd “ Em Dia com a Rebeldia”, só rock and roll. Antes de me deitar preparo algum alimento leve, uma salada, uma sopa e só então vou para a cama. Tento assistir televisão, cada vez mais impossível devido ao meu cansaço e à própria programação e quando são dez horas eu já estou nos braços de Morfeu. Como vocês podem notar, tenho tido uma vida quase monástica. Ou uma vida monástica experimental. Ou uma muda vida monástica experimental. Escolham.
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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