 |
| Quarta-feira, 07 Novembro 2007 |
 |
SÉTIMO DIA
Ontem á noite, quando estava naquele trânsito entre dormir e tentar aproveitar um pouco mais a noite, percebí algo que até não tinha me dado conta. A questão do falar parar mim já está bem resolvida, minha mente aceitou totalmente o comando que foi lhe enviado e já sabe que a fala está ausente da minha vida por enquanto. E quanto a escutar as pessoas? Pois, se me lembro bem, a última vez que escutei alguém falar comigo foi há oito dias atrás. A verdade é que ontem à noite fui possuído por um intenso desejo de ouvir alguém falar comigo, ouvir a voz de alguém dirigindo-se a mim. Mas sabia que isto era impossível. Foi então que fiz uso das três mensagens que tenho guardadas na minha secretária eletrônica. Fiquei cerca de meia hora ouvindo e reouvindo estas três mensagens.
A primeira, foi uma que minha mãe deixou há dois dias atrás logo após ter lido o meu quinto dia de silêncio. O conteúdo é de emoção, já que naquele dia escreví sobre os problemas que tenho com a minha filha mais velha. Mas foi a sua voz, a voz em si, seu timbre, seu registro, sua entonação, enfim, os elementos circundantes de sua voz, que foram me deixando pouco a pouco emocionado. Algum tempo depois fui tomado por um profundo sentimento de amor. Porque ali estava a voz de alguém que fez tudo por mim durante a vida, sem reservas, mesmo que a sua própria vida estivesse em perigo. Uma voz já fragilizada pelo tempo, falha em alguns momentos, mas cuja essência era profundamente amorosa. Naquele instante descobrí, maravilhado, que ela e eu somos um só.
A seguir, escutei a voz da minha irmã, que também elogiava o relato do quinto dia. Mas também me detive nos detalhes periféricos da sua voz, sua aparente imponência disfarçando um resquício de um timbre ainda infantil em seus quarenta anos, uma enorme afetividade intrínseca e, sobretudo, uma voz que sinalizava uma gigantesca cumplicidade que só os irmãos sangüíneoos podem ter. Descobrí, naquele instante que minha irmã e eu somos um só.
E a última mensagem, a que mais ouví, era de minha namorada Rebelde. Ela não elogiou nada e nem se referiu a texto nenhum. A palavra exclamada por ela com uma veracidade e uma força descomunal era “ saudade!”. Também em sua voz, me detive nos elementos periféricos : seu timbre de quem está se tornando uma mulher, uma linda mulher em seus vinte e cinco anos, toda a esperança que ela deposita na nossa relação ( hei, Rebel Woman, eu amo tanto você ! ). Ao reouvir aquela palavra dita pela sua boca tão bela, de uma forma tão visceral, “saudade!” me sentí o homem mais amado do mundo. Descobrí, também, naquele instante, duas coisas : que ela e eu somos um só e que eu daria a minha vida por ela.
Talvez este intenso e puro amor que viví ontem à noite tenha sido a causa da felicidade que sentí ao despertar hoje de manhã. Levantei da cama, me sentia leve, muito leve, e olhei através da escotilha. Lá fora, o navio singrava a média velocidade rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe psicodélica, sobre um oceano sereno e levemente azulado, sob um céu também azulado, onde a última estrela emitia seus últimos sinais de luz. Passados cinco minutos detectei com uma clareza solar : quem estava morando em mim nesta manhã azulada era a real felicidade. Não a felicidade transitória, aquela que vivemos quando ganhamos algo, um carro por exemplo, ou um aumento de salário. Nem aquela outra que é provocada pelo uso de alguma substância que modifica o estado da mente e quando seu efeito desaparece ela é a primeira a se retirar. Era, e é ainda, uma felicidade estável de quem ama, de quem está amando muito. Não a felicidade de quem se sente amado. Porque esta também é frágil. Esta minha felicidade matinal é uma felicidade serena, silenciosa, sutil, luminosa, deliciosa.
Estou exatamente no meio da viagem rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe cósmica, e já passei por diversas tormentas, centenas de calmarias, desvios de rota. Mas em momento nenhum deixei de fazer este trabalho ( sim, porque isto que estou fazendo aqui é um trabalho de duas faces, um interno, onde sou o caracol a procura de mim mesmo e um externo que são os relatos diários deste caracol a procura de si mesmo ) com amor. É algo que realmente amo estar fazendo. Pouco me importa as dificuldades que eu porventura tenha passado durante esta navegação diante da felicidade que é poder beneficiar uma única pessoa com a esta minha/nossa experiência. O valor desta sensação é muito alto. Tão alto que não se pode enxergar.
Tenham todos um lindo dia! |
| Comentários () | permalink |
| |
|
| |
|
 |
 |
 |
 |
| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
| |
 |
 |
Quinta-feira, 08 Novembro 2007 - Sexta-feira, 09 Novembro 2007
Quarta-feira, 07 Novembro 2007 - Quinta-feira, 08 Novembro 2007
Terça-feira, 06 Novembro 2007 - Quarta-feira, 07 Novembro 2007
Segunda-feira, 05 Novembro 2007 - Terça-feira, 06 Novembro 2007
Domingo, 04 Novembro 2007 - Segunda-feira, 05 Novembro 2007
Sábado, 03 Novembro 2007 - Domingo, 04 Novembro 2007
Sexta-feira, 02 Novembro 2007 - Sábado, 03 Novembro 2007
Quinta-feira, 01 Novembro 2007 - Sexta-feira, 02 Novembro 2007
|
| |
|
 |