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| Sexta-feira, 09 Novembro 2007 |
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NONO DIA
BALANÇO GERAL DE UMA SEMANA SILENCIOSA
Falar é cansativo e perigoso.
É o nosso equivocado ego em estado egoísta que causa todos os problemas e sofrimentos da humanidade.
Navegar em si mesmo é o melhor caminho para chegar aos outros.
O carma se constrói nesta própria vida. E nela se desfaz se agirmos.
A meditação diária é a única saída para o caos mental em que se encontra a humanidade.
O mantra tem um poder colossal sobre nossas mentes.
A humanidade está na idade da pedra lascada com relação a auto-conhecimento.
Um trabalho só é bem feito se é feito com amor.
A felicidade mora entre a serenidade e a luminosidade.
Não existe um “eu” separado do outro. Somos extensões uns dos outros.
A ilusão permeia todos os fenômenos.
A aversão é alimentada pela tagarelice verbal.
A Patagônia Secreta, quem sabe reveladora, está situada dentro de nós mesmos.
A prática diária da oferenda é um excelente remédio para curar o egoísmo e o apego.
Na origem de todas as guerras está a fala mal pensada e eivada de cólera.
As atividades feitas com a disciplina que flue de dentro para fora, sem imposição, nos torna cada dia melhores.
O verdadeiro herói sabe, também, se divertir sózinho.
Nascemos, vivemos e morremos nús. O resto é frivolidade e vaidade.
Somos completamente cavalgados pela mente. Em momento algum nós a cavalgamos.
Só quando a pessoa está no estado de não-eu é que existe verdadeira paz, beleza e felicidade.
Um bom fim de semana para todos!
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| Quinta-feira, 08 Novembro 2007 |
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OITAVO DIA
Tenho lembrado muito nestes oito dias em que meu navio está navegando sobre o Oceano do Silêncio rumo à uma Patagônia Secreta, quem sabe imaginária, sobre o primeiro voto de silêncio que fiz há doze anos atrás num monastério do Rio de Janeiro. E quase sempre acabo nas inevitáveis comparações entre este e aquele. Aquele, o do Rio, tinha um diferencial fundamental com relação a este : estávamos em onze ou doze pessoas e, dentre estas pessoas, estavam amigos e amigas minhas com quem eu estava sempre falando até a instauração do voto de silêncio que durou dois dias. Do aprendizado extraído daquela prática lembro-me de um em especial. Toda vez que tomava impulso para falar algo com um destes amigos, e me lembrava do voto, e me calava, acabava analisando o conteúdo da fala que ficava por dizer. E noventa e nove por cento delas eram falas absolutamente dispensáveis.
Já neste voto de silêncio experimental século XXI que resolví fazer há oito dias, estou absolutamente sozinho. O máximo que posso fazer em matéria de fala é falar sozinho. Mas em algumas situações externas tenho sofrido com minha a mudez voluntária. Por exemplo, quando vou caminhar no Bosque das Árvores Flutuantes de manhãzinha, sempre sou saudado pelo vigia com um sonoro e bem humorado “ Bom dia, Alemão!” e eu não posso responder-lhe com igual altivez e simpatia, como sempre fazia, aliás. Aceno com a cabeça, com as mãos, procuro dar o maior sorriso que tenho mas não emito uma única e gutural palavra. Não sei o que ele está pensando de mim. Já a caixa do supermercado acha que sou estrangeiro. Ou tímido. Ou mudo. Ou ambos, um estrangeiro tímido e mudo. Nestas e em outras outras situações semelhantes sofro por não poder ser cordial. Talvez porque ache a cordialidade um dos supra-sumos da civilidade.
Pois bem, enquanto divagava ontem à tarde sobre estes fatos do passado e do presente, fui surpreendido por uma verdadeira esquadra de papagaios sobrevoando a proa do navio. Eram centenas, perfilados de uma maneira caótica, mas voando rigorosamente na mesma direção. Olhei para onde estavam indo com tanta determinação e acabei por enxergar, a poucos metros de onde navegava, uma ilha de tamanho médio, aparentemente deserta. Ato contínuo, resolví segui-los até a tal ilha. Âncoras ao mar, nadei uns duzentos metros até a praia. A água transparente misturada às cores púrpuras do fim de tarde faziam uma belíssima pintura e, em poucos minutos já estava em areia firme, quer dizer, fofa. Quando comecei a caminhar à beira-mar, ouví ao longe ruídos de algo que parecia uma civilização. Sim, eram vozes humanas, sons de motores de veículos, todos misturados, ao longe. Não demorou muito eu já estava diante de uma pequena cidade com muitos bares, hotéis, pousadas, lojas, oficinas mecânicas. Enfim, uma pequena cidade com seu comércio e seus habitantes.
Pensei comigo em me limitar a dar uma volta pela onírica cidade e retornar o quanto antes para o navio. E assim o teria feito se não tivesse sido interceptado por um sujeito que jurava me conhecer de longa data, que dizia se chamar Afonso, “mas como? você não está se lembrando de mim?”, e puxava por um fio da memória daqui outro dali e eu nada. Nem de reconhecê-lo e nem de falar com ele. Vocês não fazem idéia da dificuldade que é explicar para alguém, através de mímica que você fez um voto de silêncio. Já estava quase conseguindo me desembaraçar do Afonso, com uma certa diplomacia, quando surgiram mais duas garotas e um outro cara. “ Olha quem está aqui !” bradou o Afonso para os outros que imediatamente exclamaram “ não acredito! fala aí, cara, como é que você veio parar aqui na Ilha dos Tagarelas?” perguntou-me uma garota de biquini cor de rosa, “ você sempre foi ligado em falar, né? está no lugar certo, brother !” disse-me um rapaz com aspecto de havaiano. Tentei, em vão, explicar-lhes que não estava falando, mas que, em outros tempos, sim eu falo, quer dizer, falava bastante até além da conta. Mas explicar tudo isto através da mímica era semlhante a fazer uma acrobacia de múltiplas e complicadas piruetas.
Já era de noite quando eles me levaram para um bar e, a esta altura, já eram mais de doze pessoas a me reconhecer “ é aquele cara que fala mais que todos, não é?” dizia um gordinho com uma camiseta com uma estampa de um papagaio. A situação estava ficando cada vez mais embaraçada para mim porque, à medida em que o tempo passava, eles iam cada vez mais achando que me conheciam e que eu tinha me tornado uma pessoa antipática, esnobe, convencida. E começaram a se zangar comigo. Até que um sujeito barbudo sacou de sua bolsa um telefone celular e começou a mostrar para todos uma imagem minha filmada há meses atrás num bar. Nela, eu discutia ferozmente com um físico sobre o aquecimento global. “Por Deus, pensava, como estes caras foram descolar esta imagem?”. E o celular do barbudinho foi rodando de mão em mão entre exclamações do tipo “ é, é ele mesmo...”. A situação estava tão delicada que, por um instante, pensei que a única solução fosse quebrar o meu voto de silêncio.
Dali para frente, tudo o que eu tinha a fazer era esperar eles encherem a cara e, no primeiro vacilo, dar o fora daquela ilha. E foi o que acabou acontecendo : quando era meia-noite, os tagarelas esqueceram-se um pouco de mim e aproveitei para ir ao banheiro de onde saí furtivamente por uma porta lateral e, graças, à luz da esplendorosa Lua Cheia, conseguí voltar ao navio sem falar uma palavra sequer. Mas numa exaustão que vocês não podem imaginar!
A conclusão a que cheguei é que estas ilhas que circundam a Patagônia Secreta, quem sabe tagarela, sabem muita coisa a meu respeito. E que o melhor daqui para frente, como logística de viagem, é navegar direto para aquela Patagônia, a Secreta.
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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