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| Sábado, 10 Novembro 2007 |
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DÉCIMO DIA
Depois de uma semana repleta de palavras escritas, mas nenhuma dita, resolví mostrar para vocês algumas imagens do meu dia a dia. Desculpem-me pela qualidade das fotos, sou um fotógrafo prá lá de amador. Todas elas foram feitas a bordo do navio que singra o Oceano do Silêncio rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe surrealista, exceto as imagens do Bosque das Árvores Flutuantes, bosque que poderia muito bem estar na convés do navio, mas que, infelizmente, no corre corre dos momentos que antecederam a expedição acabei esquecendo de colocá-lo lá.
 O altar, silencioso e fechado, aguarda as primeiras oferendas do dia...
 Eis as 7 oferendas sobre o altar : água para beber, água para banhar-se, alimento, odor sob a forma de incenso, cor sob a forma de flores, luz sob a forma de um cristal e de velas, e som sob a forma de um caracol marinho. Fazer oferendas é muito semelhante a receber uma visita em sua casa e você quer oferecer a esta visita o que há de melhor na sua residência...
 Feita as oferendas, é hora de pegar o caminho do Bosque das Árvores Flutuantes...
 Vejam como ele é lindo numa manhã de sol...
 Estas duas árvores aí são minhas amigas. A Isaura e a Sandrix, elas são primas e estão sempre flutuando juntas!
 Quando volto para o navio olhem só quem está me esperando para ouví-lo...
 Enquanto escuto Hendrix aproveito para saborear uma tigelinha de granola com leite, já que os nutricionistas ainda não colocaram este precioso alimento nas suas listas negras...
 Então eu me sento nesta almofada e fico meditando e fazendo outras práticas durante uma hora...
 Depois eu escrevo para vocês, almoço e deito nesta rede que aparece só um pouquinho...
 Aí eu me sento numa poltrona que tem no escritório e leio um bocado, até aquela hora em que o dia vai para outro lugar...
 Cansado de ler, eu desço para o altar e fico mantreando e pensando neste Buda super bonito aí, chamado Tchenrezi, o Buda da Compaixão...
 E neste outro também, o Mahakala. Ele parece bravo mas na verdade só fica irado com aqueles que querem destruir as belezas do budismo...
 Ih! Olha o meu violão ali na sala me esperando para eu tocar umas bossas novas e depois uns bons rock and rolls...
Para quem acordou às cinco e meia da manhã, dez da noite já é muito tarde...
 Opa! Parece que já estou começando a sonhar....Tchau, pessoal! |
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| Domingo, 11 Novembro 2007 |
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DÉCIMO PRIMEIRO DIA
Com os meus comandos mentais já devidamente adestrados para não falar e praticamente desfalecido de saudades, recebí minha namorada, Rebelde, para passar o fim de semana a bordo deste navio que, apesar das borrascas e das intempéries marítimas, continua singrando solene e altivo o Oceano do Silêncio rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe amorosa. É claro que não tínhamos a menor idéia de como seria nossa convivência a bordo durante o fim de semana. Mas conhecendo-a, ou supondo conhecê-la, intuía ou profetizava dentro de mim como seria legal nossa história nestes três dias. A verdade é que ela parece ter feito um voto de silêncio quando estava nadando no útero de sua mãe : é muito serena, fala pouco e quando o faz raramente refere-se a si própria. Em outras palavras, minha namorada tem um ego muito rarefeito, quase que em estado gasoso. Parece que ela já nasceu com uma condição búdica bastante avançada. E esta talvez seja uma das razões pelas quais eu a amo tanto. Existem outras razões, secretas. E as que ainda restam são misteriosas. Felizmente.
Por outro lado, eu sou um tremendo monstro tagarela em estado primitivóide, com um ego gigantesco e um orgulho do tamanho do Himalaia. E neste fim de semana este meu repertório verbal, dizem que extremamente sedutor, estaria fora do jogo. Teria que me comunicar através de outros meios que não a fala. Pois bem, quando ela chegou em casa, linda, ligeiramente apreensiva, com um presente embaixo de seus braços ( o livro mais lindo que ví em toda a minha vida, um compêndio de imagens radiantemente belas de entidades do panteão do budismo tibetano ), eu comecei a pular, dançar, gemer e murmurar enquanto beijava-a com a boca trêmula de emoção. Nesta primeira noite, era sexta-feira, ah, como eu queria lhe contar tantas coisas, dizer-lhe o quanto estava feliz em vê-la, pelo presente que ela me deu, por ela existir, enfim, queria falar-lhe isto, aquilo, aquilo outro... Mas com a reveladora passagem do tempo fui percebendo que, sem dizer uma só palavra ela percebia claramente tudo o que estava se passando comigo, tanto no âmbito das minhas emoções, e, a partir de um certo momento, dos meus pensamentos. Ela : telepata.
Com a minha máquina tagarela desligada, fomos nos acalmando e dormimos, silenciosamente, abraçados. No sábado de manhã ficamos nos observando, os olhos falam como duas bocas com mil línguas cada, e nos desejando. Sábado : foi o dia em que percebí que não precisava lhe falar absolutamente nada. Todas as milhares de palavras que me vinham à mente eram dispensáveis, superficiais, redundantes. E eu ia delentando-as, uma a uma, para o deleite da minha serenidade e triunfo do meu voto de silêncio. Vez ou outra, usávamos o artifício do bilhete, como o fiz no no domingo, logo que acordamos.
Escrevi em letras de formas esta única palavra interrogativa “YOKO?” e lhe mostrei. Ela já estava sabendo da exposição desta genial artista nipo-americana-cósmica e, em menos de uma hora, já estávamos a caminho do Centro Cultural Banco do Brasil. No caminho, no ônibus, encontramos com um amigo. Ao lhe dizer através de mímica que eu não estava falando, ele pensou que eu estivesse afônico por causa de algum show. Mas Rebelde conseguiu, em tempo, dar-lhe a verdadeira explicação : “ele resolveu ficar quinze dias em silêncio” e, a seguir, deu uma risada. O nosso amigo também começou a rir e nos disse algo como “ eu sempre soube que este cara é louco, mas não sabia que ele já estava neste ponto!”.
Então, já estávamos na exposição de Yoko Ono, uma artista multi mídia com uma considerável influência do zen budismo e de todas as suas decorrências minimalistas. Guardei para o final deste décimo primeiro dia de expedição rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe zen-budista, algumas frases de um trabalho de Yoko chamado “Cleaning Peace” e de um outro, “Sound Piece”.
Cleaning Peace III
Tente não dizer nada negativo sobre ninguém a-durante três dias b-durante 45 dias c-durante 3 meses Veja o que acontece com a sua vida.
Cleaning Peace IV
Escreva todas as coisas que lhe provoca medo na vida. Queime. Despeje óleo de ervas com aroma doce sobre as cinzas.
Sound Piece II
Ouça sua respiração Ouça a respiração do seu filho. Ouça a respiração do seu amigo. Continue ouvindo.
Sound Piece IV
Cada planeta segue sua própria órbita. Pense nas pessoas próximas a você como planetas. Às vezes é interessante apenas observá-las girando em suas órbitas e brilhando.
É isto aí, Yoko! O silêncio é revolucionário. Na arte, no amor e no cosmos.
Tenham todos uma excelente semana!
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| Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos |
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