Quarta-feira, 14 Novembro 2007
Terça-feira, 13 Novembro 2007
DÉCIMO TERCEIRO DIA

“O homem é uma crisálida que se lembra” ( Mário de Sá Carneiro )

Ontem à tarde, enquanto navegava à deriva pelo Oceano do Silêncio, comecei a observar a estranha presença de borboletas próximas ao navio. Flutuavam, leves como são estes serzinhos coloridos, e vez por outra, davam um mergulho rasante nas águas verdes do mar. A princípio eram poucas, talvez dez, no máximo vinte. À medida em que a tarde ia caindo e o céu revestia-se de uma mistura de púrpura com um azul escuro, compacto, os pequenos seres alados foram se multiplicando. Notei que algumas delas já não só davam vôos rasantes como mergulhavam no interior do oceano.

Intrigado com o fenônemo, lembrei-me de um livro que tinha lido há pouco tempo atrás, “ As Fantásticas Viagens de Mantraman”. Num dos episódios, “Mantraman e o Oceano das Borboletas Impermeáveis”, o personagem, que é repórter de uma revista de viagens transcendentais chamada Pirlimpimpim, recebe uma missão de seu editor Macro Céfalo : pescar um “cardume” destas borboletas e trazê-lo para a redação da revista. Mas, embora não tenha conseguido “pescar” uma só borboletinha impermeável, Mantraman recebe a informação de um nativo que o acompanhava na “pescaria”, de que aqueles que seguem as borboletas até o fundo do mar chegam a lugares secretos. Neste mesmo dia Mantraman ligou para o seu editor e passou-lhe a informação. Este por sua vez, que é um personagem tremendamente egocêntrico, exigente e desrespeitoso com o repórter, não deu ouvidos a Mantraman e ainda deu-lhe uma sonora bronca, chamando-o de incompetente pelo fato dele não ter conseguido pescar o tal cardume de borboletas impermeáveis.

E foi só quando me lembrei desta história que deduzí que não estava mais navegando no Oceano do Silêncio e sim no Oceano das Borboletas Impermeáveis. De repente, quando o Sol já se mesclava ao horizonte, uma horda de borboletas começou a surgir no céu. Eram milhares delas, verdes, vermelhas, laranjas, azuis, multicores, transparentes, de todas as formas e tamanhos, todas voando em direção ao navio. Quando estavam quase atingindo a superfície marítima, deram um rasante tão feroz sobre a minha embarcação que ela tombou e eu acabei caindo no mar. À minha frente um gigantesco túnel de ar transparente se formou, uma espécie de vácuo, e foi através dele, em meio a milhares de borboletas impermeáveis, que fui descendo em direção ao fundo do oceano. Em pouco tempo já me encontrava no solo arenoso e brilhante do mar e via, de passagem, dezenas de cavalos marinhos, celacantos, polvos e outros seres marinhos. Quando a queda vertiginosa chegou ao fim, fui despejado dentro de um casulo e ouví o estalido de uma porta se fechando abruptamente.

Não houve tempo, durante esta viagem, para nenhum tipo de pensamento dedutivo, lógico ou formal. Quando dei por mim, já estava no interior deste casulo e a primeira coisa que notei era que ele exalava um odor de mofo e que sua atmosfera era claustrofóbica. Ao longe, ouvia um vozerio intermitente. Fui caminhando lentamente e, aos poucos, comecei a enxergar com clareza o que se passava no interior daquele casulo submarino : ele era povoado por dezenas de pequenos ciros, vestidos de forma diferentes, com diversas cores de cabelos, mas, básicamente todos do mesmo diminuto tamanho. Eu próprio ( ?) percebí que à medida em que caminhava, também ia perdendo altura. Num certo momento, já do tamanho de todos os ciros ali presentes, comecei a identificá-los através de suas atitudes.

O primeiro que observei foi um que estava sentado numa mesa diante de uma escultura inacabada. Notei que sempre que ela estava chegando ao fim ele a destruía com um martelo. E recomeçava tudo de novo de uma maneira incessante. Logo à sua frente, um outro pequeno ciro fazia uma severa divisão de algumas pessoas que o rodeavam : “ já falei, vocês são surdos?, os que eu gosto ficam aqui do meu lado, os que eu tenho aversão que fiquem bem longe de mim”. Repetia a frase de dois em dois minutos. Indiferente a toda esta situação, um outro ciro andava sozinho pelo casulo com ares de superioridade. De vez em quando parava diante um outro ciro e dizia “você não está entendendo nada”. Sentado numa mesa com uma outra pessoa, um ciro nervoso referia-se a alguém com palavras tão pesadas que elas chegavam a se materializar no ar e depois caíam no chão provocando estrondos ensurdecedores. O único ciro inerte estava deitado numa cama recoberta por teias de aranha. E só levantava-se para ir ao banheiro e logo retornava para a cama.

Encostado na frágil parede do casulo, um pequeno ciro repetia “ e eu? e eu? e eu?”. Ao lado dele, um ciro artista, sedutor, cantava umas canções românticas para um público imaginário. O mais patético deles era um ciro cego que não conseguia identificar quem estava à sua frente mas pouco se importava com isto. Para ele, todos pareciam ser a mesma pessoa. O mais engraçado, sem dúvida, era o pequeno ciro embriagado na mesa do bar. Tinha acessos de bondade e, volta e meia, dizia para alguém : “está precisando de quanto? toma, eu tenho aqui”. Quando estava quase chegando no fim do casulo submarino, vi o pequeno ciro falso, se fazendo passar por uma outra pessoa para obter alguma vantagem pessoal. E o último ciro que ví naquele casulo claustrofóbico, era o ciro das mentiras. Reconheci-o por causa do seu nariz que era um pouco mais saliente do que os narizes dos demais.

Quando comecei a me sentir mal, por um instante pensei que fosse ficar preso no casulo mofado com aquela infinidade de pequenos ciros, avistei um espelho que estava colocado no lugar que parecia ser a saída do casulo. Com minhas pernas curtas caminhei a passos largos em sua direção ( aquele vozerio estava me deixando maluco) e quando pude me enxergar refletido em sua superfície, notei que todos os outros ciros começaram a desaparecer. A evaporação dos incontáveis pequenos ciros durou poucos minutos absolutos. Mas como o tempo é relativo, prefiro pensar que esta dissolução demorou muitos anos para acontecer. E então, pouco a pouco, o ruído insuportável foi dando lugar a um silêncio reconfortante. O odor nauseabundo foi transformando-se em aroma de flores. E um brisa marítima deliciosa invadiu o casulo tornando-o arejado.

Finalmente, a minha própria figura no espelho foi desaparecendo. E quando só restavam as minhas mãos, toquei na sua superfície e passei para o outro lado.

Amanhã eu conto para vocês como é o outro lado do espelho.






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Segunda-feira, 12 Novembro 2007
DÉCIMO SEGUNDO DIA

Para quem estava em solitária e silenciosa viagem rumo a uma Patagônia Secreta, quem sabe tropical, durante dez dias, este fim de semana foi para mim um autêntico carnaval. Não bastasse ter ficado na serena e amorosa companhia da minha namorada de sexta à noite a domingo à tarde, no domingo à noite fui jantar na casa dos meus pais a fim de festejar os luminosos 82 anos do meu pai. Ali estavam todos os meus irmãos, cunhadas, cunhado, sobrinhos, meu pai e minha mãe. Devo alertar logo de cara que minha família é muito animada quando se trata deste tipo de encontro e a tônica dominante vai do fino senso de humor ao escracho sem limites. E que, quando estou em meu estado tagarela, sou um dos que mais incentiva a instauração deste clima de alegria e descontração. Difícil me imaginar calado durante uma reunião deste tipo, não? Pois para mim foi uma experiência que, além do inimaginável ineditismo, me fez perceber algumas nuances que até então eu nunca tinha me dado conta.

A primeira delas e talvez a mais marcante foi que, pela primeira vez, saboreei todos os pratos que foram servidos. Sim, quando estamos em silêncio, o paladar parece ficar bem mais apurado. A cada garfada da salada que foi servida na entrada, eu gemia em voz baixa e suspirava de prazer entre uma e outra mastigação. E a cada nova iguaria que era trazida à mesa meus sentidos olfativos, degustativos e mentais pareciam acender de uma maneira extraordinária. A conclusão, a princípio, pode ser bastante óbvia : quando estamos comendo e não falamos nos concentramos muito mais no alimento que estamos ingerindo. Mas, quando voltava para casa e, mesmo hoje de manhã, uma questão sem resposta instalou-se na minha mente : mas por que quando estou me alimentando sozinho não sinto esta intensidade de sabores e odores que sentí naquele jantar de ontem à noite? As respostas são múltiplas e todas elas vagas. É claro que não cozinho tão bem quanto a Luiza, que preparou, com evidente carinho, aquela magnífica seleção de pratos. Outra resposta pode estar no fato de que quem cozinha para si próprio sempre acaba supervalorizando os defeitos da própria comida. Ou ainda, porque não?, eu ser definitivamente um péssimo mestre cuca. Ainda estou em dúvida.

Outro fato que me chamou a atenção, e posso estar enganado, é que, apesar do imenso carinho com que fui tratado, o fato de eu estar calado fez com que surgisse em algumas pessoas uma certa sensação incômoda. Não sabiam, em outras palavras, lidar com a situação : aquele tagarela desbocado e desbundado não deu o ar de suas palavras e esta atitude de mudez parece ter criado uma certa perplexidade no ambiente. Mas o fato é que eu estava como sempre estive, só que em silêncio. E muito feliz de poder me encontrar com aquelas pessoas que são parte super importante da minha vida.

As perguntas que eu mais ouvia ( e isto era engraçado, porque como eu não podia responder, muitas das perguntas acabavam ficando pela metade, como se a pessoa se tocasse, no meio do caminho, que eu não poderia respondê-la com palavras ) eram : “ mas para que ficar quinze dias em silêncio? “ “aonde você quer chegar com isto?”. E estas perguntas, mesmo se eu estivesse no meu estado tagarela-compulsivo, eu ( ainda ) não saberia respondê-las. Porque a Patagônia Secreta, quem sabe reveladora, só agora, nesta segunda feira, depois de doze dias de navegação, começou a dar claros sinais de existência. O relatório desta expedição, com as respostas a estas perguntas, vocês terão, com certeza, no último dia desta cansativa mas altamente enriquecedora viagem em torno do silêncio.

Um outro dado que percebí durante este fim de semana em que me aventurei em meio à “multidão” é que a pessoa silenciosa é quase sempre confundida com uma pessoa que parece estar sofrendo. A uma certa altura do jantar um dos meus queridos irmãos olhou para mim e me vendo caladinho ali sentado na minha cadeira, não se aguentou e exclamou : “ mas que suplício! que suplício!”. Um outro irmão, tão querido quanto este que acabei de citar, me perguntou em voz baixa “ sussurrar pode?”. Eles, com todo amor que tem por mim, pensavam que eu estava sofrendo por não falar. E o que se passava era exatamente o contrário. Sentia-me absolutamente feliz e aliviado de não precisar falar nada e de estar lá só para ouvi-los, pela primeira vez na minha vida, para descanso e estranhamento do meu ego.

Num certo sentido foi excelente misturar-me um pouco às pessoas nesta fase da minha viagem e quebrar um pouco da rotina que estou vivendo. Porque daqui prá frente, faltam três dias, este navio de onde já vislumbro a presença de uma Patagônia Secreta, quem sabe extraordinária, está com todos os seus instrumentos de navegação apontados para uma só direção. E a tripulação, que conta comigo e com todos os meus pensamentos, está absolutamente concentrada para que esta expedição seja realmente reveladora e inesquecível.

Para vocês que permancem em terra firme, bom trabalho e boa sorte!



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Quarta-feira, 14 Novembro 2007
DÉCIMO QUARTO DIA : O OUTRO LADO ESPELHO






































































































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Ciro Pessoa, 50, é poeta, compositor, cronista e praticante budista, com alguns hiatos, há 15 anos. Adora rock'n'roll, literatura beat, cinema e sua maior diversão, além de namorar com a Rebelde, é inventar mundos paralelos
 
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